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Campo Grande - MS, domingo, 18 de novembro de 2018

CRÔNICA

Theresa Hilcar: "Depois, pode ser nunca"

11 JUL 2017Por 04h:00

Quantos amigos teremos que perder para entender a morte? E a vida. Para compreender a amizade, o carinho, e aceitar que tudo o que temos é o momento presente? São questões que sempre me afligem, e que vem com mais força à tona quando um amigo vai embora sem que eu consiga me despedir. Há algum tempo, num dia triste como hoje, compreendi que o nosso luto, a tristeza diante da morte de alguém querido, tem muito a ver com a sensação de culpa. A culpa de não ter sido mais presente, de não ter dado mais atenção, mais ouvidos, mais coração.

Tenho sempre o mesmo sentimento diante de cada perda. O sentimento de impotência e de culpa por cada momento não vivido, não compartilhado. Não ter demonstrado o quanto eram importantes pra mim. Nessas horas quando a morte, impiedosa e sorrateiramente, bate à minha porta, vários nomes vêm a minha cabeça: Maria Inês, Volanda, Júlio, Sérgio, Aninha, Iracema, Celina, Nelly Ciro, Geraldo, e agora o Silvio. Minha culpa, a minha máxima culpa, repito baixinho. Por que não dei aquele telefonema, não perguntei se estava tudo bem?

O impacto diante da partida, sempre inesperada e prematura, de alguém querido, é como um soco no estômago. No início ficamos atônitos, anestesiados. Depois vem a dor e o mal-estar. E então tomamos consciência da nossa própria mortalidade. Amigos são irmãos que escolhemos, são pessoas de quem gostamos, admiramos, sem nenhum esforço ou motivo. Ninguém passa pela nossa vida por acaso. Pode ser apenas para nos amar, para nos ensinar algo importante ou para que possamos refletir sobre nós mesmos.

Neste momento, em que lamento a morte do amigo querido, vêm as lembranças do convívio, algumas cenas, frases, gestos. Um filme. Vêm a minha mente, claro e límpido, os almoços de segunda a sábado no “Salada Principal”, um dos primeiros restaurantes naturais da cidade, que ficava na Rua 13 de Maio. Vejo nítida e claramente o dia que faltei por conta de uma forte gripe. Estranhando minha ausência, Silvio me ligou preocupado. Pouco depois, recebo em casa uma marmita com comida saudável, para restabelecer minhas forças. Sua generosidade era assim, imensa.

Pouco sei do Silvio Nucci vereador, ou secretário de Estado. Para mim ele sempre foi simplesmente o Silvinho que nos alimentava, matava nossa sede e ainda nos enchia com sua alegria e alto-astral. Um gentleman. Mais que um dono de restaurante, era um anfitrião. Na última vez que o vi foi no seu restaurante na última Casa Cor, da Avenida Afonso Pena. Passei para dar um alô e sentei-me à mesa com algumas amigas. Uma delas, ao final, percebeu que não tinha levado o cartão de crédito, e ainda fazia questão de pagar a conta de toda a mesa. Chamei o Silvio e expliquei a situação. Com sua habitual gentileza apenas disse: passa aqui amanhã e acerta. Minha amiga, educadíssima e muito preocupada, queria ir até sua casa para pegar o cartão. No entanto e não obstante a aflição da amiga, ele apenas sorria e continuava repetindo: paga amanhã, ou quando vier novamente. Aquilo não era importante. A vida, a alegria, os amigos, vinham em primeiro lugar.

Enquanto escrevo a crônica, leio a frase de Prem Baba, que me consola. Diz ele: “Conforme você vai dançando a dança da vida, você compreende que a morte é só uma mentira que a matéria quer provar”. Tomara seja isto. Tomara possamos todos nós nos encontrar novamente, em outro lugar – talvez muito melhor – e celebrar a amizade. E nos desculpar pela nossa ausência, pelo nosso profundo egoísmo que sempre traduzimos como “falta de tempo”. Que vem em frases como: “depois eu faço”, “depois eu digo”, “depois eu te vejo”. E assim a vida passa. Cada dia mais depressa. O depois? O depois é apenas um vazio, uma dor incômoda que nos faz lembrar os versos de Milton Nascimento: “Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”.

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