Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Andrea Zamorano

Carioca troca Rio de Janeiro por Lisboa
para realizar sonho de ser escritora

4 DEZ 2017Por Thereza Hilcar10h:15

Aos 23 anos, a jovem Andrea Zamorano trocou as terras cariocas, onde nasceu pela capital portuguesa com um pensamento na cabeça: Ser escritora. Depois de 25 anos e alguns desvios no plano – cursou Letras e acabou abrindo, junto com o marido Rui Domingos, vários restaurantes em Lisboa, entre eles, a famosa Hamburgueria Gourmet – Café do Rio, Andrea estreou na literatura em grande estilo.

O romance “A casa das rosas, estória trágica com um toque de fábula e outro de realismo fantástico tem como cenário a transição entre a ditadura e o regime democrático no Brasil, no início da década de 1980. O livro, que saiu em 2015 em Portugal e conquistou o prêmio Livro do Ano da Revista TimeOut Lisboa, entrou no Brasil pela porta da frente: durante a Festa Literária Internacional de Paraty. E colhendo os frutos do sucesso na estreia, a autora realizou incursões por algumas capitais brasileiras.

Recentemente veio ao Brasil para participar da FLI Araxá, junto com escritores consagrados como Mia Couto e Gonçalo Tavares. E foi de lá, que a simpática Andrea, que se considera um híbrido de brasileira e portuguesa, concedeu esta entrevista exclusiva.

Você disse em entrevista que estava cheia de receios com relação à publicação deste primeiro livro e que a espera foi “angustiante”. Por que você não iniciou sua carreira literária editando os textos de ficção que você escreve para a prestigiada revista digital Blimunda da Fundação José Saramago?Teria sido um bom começo, é certo. Mas a minha colaboração para a Revista Blimunda da Fundação José Saramago só se iniciou quase um ano depois de ter lançado o romance em Portugal.

Quanto tempo durou o processo da elaboração do livro – da ideia até a publicação?
Levei cerca de um ano a escrever o romance e até à sua publicação passaram-se mais dois. Ou seja, o processo levou três anos.

A hesitação – ou o medo como você já declarou - em publicar seu primeiro romance foi rompida de forma um tanto trágica, com a morte de um cliente/amigo. Foi quando você percebeu que a vida só teria sentido na literatura?
Não acredito que a vida só tenha sentido na literatura. Parece-me, com todo respeito, que há outras tantas formar de viver bastante mais interessantes do que aquela que escolhi. A literatura é a expressão artística onde me sinto confortável. Poderia ter sido a escultura se tivesse algum talento e engenho mas não é o caso. O que aconteceu naquela altura foi que me dei conta da vida do caráter improrrogável da vida. Tinha de viver aquilo que andava a adiar caso o contrário poderia nunca chegar a acontecer. Tomei a decisão de não fugir mais do meu sonho. A vida é demasiado efêmera para nos preocuparmos tanto. Temos de viver o que queremos, sem medos, sem receios pois “só não erra quem não faz”, como diria Saramago.

Este sucesso, quase instantâneo, tanto em Portugal quanto no Brasil lhe assustou de alguma forma? OU seja, sua responsabilidade agora como autora aumenta?
É verdade que tive um bom acolhimento do público, da crítica e dos autores tanto em Portugal quanto no Brasil. Adoro quando as pessoas me dizem que gostaram do livro, enche o meu coração de satisfação porém não me envaidece. Talvez sinta um pouco a responsabilidade, tento não pensar em como os leitores receberão o segundo romance, contudo admito que tem sido bem mais difícil.

Por que escolheu o período da ditadura para narrar o seu romance, já que nem você nem sua família participaram do processo? Ao contrário, você contou que sua mãe lhe impedia de ir às passeatas.
Não participamos diretamente nas manifestações de rua e, de fato, a minha mãe me proibia de ir sair com medo da repressão policial mas a transformação dava-se por todo lado, acredito que ninguém tenha ficado alheio ao processo de redemocratização do Brasil ainda que não se desse conta. A minha família, assim como muitas outras, ainda que em silêncio, estava tomada por um sentimento de esperança transversal à sociedade. Foi um momento lindo da nossa história que apesar de muito jovem, tinha treze ou quatorze anos, pude testemunhar através dos jornais, da televisão, das conversas na escola e até nos congestionamentos de trânsito causados pelas manifestações nas ruas. Aquele período foi decisivo para a minha formação política. Era quase impossível não se emocionar. Por isso escolhi o período do fim do regime ditatorial.

A casa das Rosas do seu livro é um local que existe em São Paulo, e onde funciona o Centro Cultural Haroldo de Campos. O que lhe motivou a escolher este lugar para ambientar sua história, ainda com tantos casarões no gênero no Rio e claro, em Portugal?
A Casa da Rosas da Avenida Paulista é um edifício emblemático da cidade de São Paulo e não apenas um casarão que, como bem afirma, que poderia se encontrar no Rio de Janeiro, minha cidade natal, ou até em Lisboa. A Casa das Rosas é em si mesma uma espécie de resistência, um edifício que não sucumbiu ao avanço do concreto na cidade e se converteu num local de poesia, de literatura, de cultura, uma de subversão do paradigma vigente naquela região. A Casa das Rosas é um oásis de liberdade no meio da opressão pelo capital. Só a cultura pode vencer a brutidão. Sem contar que a própria avenida Paulista foi palco das maiores manifestações pela liberdade no período das Diretas Já.

O segundo capítulo do livro é antecedido por uma citação do escritor japonês Haruki Murakami que diz: “o que vivemos, o que sabemos e o que não sabemos coexistem, num estado de perfeita confusão, fatalmente ligados, como gémeos siameses.” Você também bebe da fonte do realismo fantástico? O que você tem em comum com o autor, além do fato concreto de que ele também ter sido proprietário de um bar em Tóquio durante sete anos?
Não tenho nenhum tipo de preconceito literário, tanto sou capaz de ler autores premiados, como iniciantes – como eu – ou até da chamada literatura light (ou comercial). Acredito que o importante é ler. Ler liberta. Os meus preferidos já foram, em tempos, a literatura do realismo fantástico que efetivamente ficaram gravados em mim, como Cortázar ou Carlos Fuentes, para citar apenas dois; atualmente, procuro ler coisas que me arrebatam, sejam de que gênero for, como mencionei. E a forma como influenciam vai mudando. Pego uma ideia aqui, uma palavra acolá, às vezes vou até determina parte de uma livro ver como o oautor resolveu a questão A ou B, depende. Outro dia, o escritor João Paulo Cuenca fez uma observação muito interessante sobre o meu romance com a qual concordo, ele afirmou que muito mais do que estar dentro da escola do realismo fantástico, o meu romance era gótico. Talvez essa associação ao realismo fantástico se deva um pouco ao fato de ser sul-americana. Em relação ao Murakami para além do bar, restaurantes no meu caso, tenho as corridas. Corro pelo menos três vezes por semana mas não faço ultramaratonas como ele. Quem sabe um dia chegue tão longe nas corridas e na literatura.

No seu livro o português do Brasil faz uma espécie de casamento com o português de Portugal. Você acha que os portugueses tratam melhor a língua pátria do que nós brasileiros?
Fiz o casamento das duas variantes da língua portuguesa porque isso é parte do que me transformei, meio brasileira, meio portuguesa sem renunciar a nenhuma parte. Fi-lo por ser algo cotidiano em mim e não por razões de preferência, é involuntário. É apenas o que sou. Não acredito em certo ou errado, nem em melhor ou pior, muito menos no conceito de nacional nas línguas, acho-os redutores. Conforme postula Chomsky, a língua é uma habilidade inata aos seres humanos, uma parte indissociável de cada um de nós, que vai sendo transformada à medida que é vivida, usada. As nossas vivências diárias alteram o nosso uso da língua, tal como a língua vai se alterando em função das necessidades do seu uso. Os gramáticos gostam de tentar aprisionar as línguas em livrinhos de códigos mas a língua nunca se deixa ficar aí muito tempo, dá sempre a volta e encontra mecanismos de compensação muito interessantes.

Como o meio literário português – exigente por natureza – tem lhe tratado?
Mais uma vez, não tenho a impressão do meio literário português ser mais exigente do que o brasileiro. Ambos são igualmente duros, difíceis de romper e ao mesmo tempo generosos. Tenho sido muito bem tratada nos dois.

Você já está trabalhando num próximo romance. Pode adiantar alguma coisa?
Tenho algum constrangimento em falar no tema, mas posso dizer que, desta vez, estou tentando que o romance se passe em Lisboa.

Uma curiosidade: o movimento no seu Café aumentou depois do sucesso da Casa das Rosas?
Aumentou o movimento de clientes escritores. O Café do Rio é frequentado por autores como José Eduardo Agualusa, José Luis Peixoto, Valter Hugo Mãe, Nélida Piñon, Antônio Torres, Marçal Aquino entre vários outros. Essa partilha tem sido incrível.

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