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CORREIO RURAL

Sucessão familiar ajuda na sobrevivência do Campo

Conflito de gerações ainda é uma das principais barreiras

25 FEV 19 - 06h:00ALINE OLIVEIRA

Com tantas transformações, o produtor rural retoma uma preocupação fundamental para o funcionamento e crescimento da propriedade: quem assumirá a gestão da empresa quando estiver impedido de trabalhar?

A migração dos descendentes (filhos e netos) para a área urbana em busca de educação formal ou emprego, diminui gradualmente o número de moradores da área rural, que somam 36% da população brasileira. Os dados são do Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No Estado, existem 70.710 estabelecimentos rurais, dos quais, 20% pertencem a produtores individuais (propriedades particulares). Deste público, apenas 4% tem menos de 30 anos, o que representa 2.719 pessoas, enquanto que as pessoas com mais de 60 anos somam 26.750 moradores (38%). 

 O coordenador do Departamento de Planejamento e Projetos do Sistema Famasul, instrutor do programa CNA Jovem e produtor rural, Vidal Subtil explica que a situação melhorou, pois, há alguns anos era tabu conversar sobre as dificuldades encontradas no trabalho entre familiares. “Atualmente, o assunto é tratado com maior naturalidade, no entanto, alguns pontos ainda precisam ser melhor desenvolvidos para que a transição seja tranquila e segura”, observa. 

Subtil que passou pela experiência da sucessão familiar na propriedade da família explica que um dos maiores obstáculos é criar atrativos para a permanência do sucessor dentro do negócio familiar. Isso porque antes, as atividades no campo eram vistas pelos herdeiros como algo mais braçal, com processos mais simples e comandado por apenas uma pessoa (o patriarca). 

“Com o passar dos anos, o uso de tecnologias nos processos produtivos, a gestão da informação e até mesmo o aumento da demanda por mão de obra especializada fez com que o filho do produtor vislumbrasse no campo uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e profissional”, explica o profissional.

Na avaliação do coordenador de projetos, um dos pontos que merecem maior atenção é conciliar o crescimento da família, por exemplo. Os filhos casam e chegam os netos, as necessidades aumentam e é preciso encontrar o equilíbrio entre as aspirações de cada sucessor e familiares. 

“A propriedade rural é um negócio onde os sócios não se escolhem, não é um acordo, é uma situação na qual naturalmente eles compõem a sociedade, tendo como sócios, o próprio pai/mãe e irmãos, entre outros familiares. Isso pode ser benéfico, se os interesses forem comuns como pode ser um obstáculo, caso ocorra o contrário pode haver a individualização dos bens”, esclarece Subtil.

SUCESSÕES EFICIENTES

O produtor rural, Maykon Rezende Queiroz, 36 anos, sempre trabalhou com a família, na propriedade rural localizada no município de Terenos. Ele conta que chegaram ao local em 1991 e só ficou afastado de casa, no período em que estudou em uma escola técnica agropecuária, na cidade de Campo Grande. 

“Quando chegamos o foco do meu pai era mais na agricultura e plantamos milho, arroz e mandioca. Algum tempo depois começamos a trabalhar com pecuária de corte e leite e nunca sai de perto deles”, destaca o sucessor. 

Queiroz conta que sempre teve um bom relacionamento com o genitor, por isso não passou pelo “choque de gerações” apontado como o principal motivo de afastamento na família rural. “Sempre tivemos um ótimo diálogo e meu pai estimulava novas ideias e projetos na propriedade. No entanto, lembro de alguns amigos que acabaram indo embora porque não conseguiam dialogar com seus familiares”, observa. 

No mesmo município, a produtora rural, Zenaide de Souza dos Santos, 38 anos, conta que não se arrepende de ter voltado para o campo, a fim de ajudar o pai idoso e que enfrentou um severo tratamento de câncer. “Nossa família sempre trabalhou na área rural e meu pai adquiriu a propriedade em 1989 para atuar na produção de leite. Decidimos juntos (a família), iniciar uma produção de horticultura há seis meses e agora comercializamos abóbora, manjericão e hortelã”, revela. 

Zenaide conta que também estudou em escola técnica e foi despertada para os movimentos sociais do campo, no qual atuou como sindicalista e também como educadora, em curso de formação para professores rurais. “Na verdade, sempre procurei estar presente na propriedade, mas, era meu pai que ficava com toda responsabilidade. No período de tratamento da doença ele ficou hospedado na minha casa, em Campo Grande, e quando fui levá-lo para propriedade pensei: ou a gente trabalha de verdade ou vende tudo e vai embora”, lembra a produtora rural. 

Entretanto, os descendentes concordam que a sucessão familiar ainda precisa de mais atenção, principalmente na agricultura familiar que utiliza somente mão de obra parental. Este público, na maior parte das vezes, não têm condições de contratar funcionários e pagar o salário previsto em lei.

“A atividade rural por si só necessita de muita dedicação e alguns jovens preferem ir para cidade trabalhar por salários. Então, os mais velhos permanecem enquanto aguentam e muitos acabam desistindo”, pontua Queiroz.

Zenaide com sua experiência educacional sugere que é fundamental investir em projetos sociais que preparem essas famílias para uma futura sucessão.

“Muitos jovens não têm aptidão para trabalhar no serviço rural, mas, outros vão com a ilusão de melhores condições financeiras. Sem capacitação o salário é baixo e acabam inclusive, pedindo ajuda financeira da família. Mas, posso dar um exemplo de que uma pequena propriedade que diversifica as atividades pode oferecer uma renda média mensal de R$ 1.500 reais”, conclui.

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