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CORREIO RURAL

Laboratório vai monitorar incidência de agrotóxicos nos rios de Mato Grosso do Sul

Instalação vai analisar resíduos de produtos agroquímicos em águas superficiais

19 DEZ 16 - 16h:06SILVIA ZOCHE (Embrapa Agropecuária Oeste)

Um laboratório referência em análise e monitoramento de resíduos de agrotóxicos em águas superficiais será construído em Dourados, em Mato Grosso do Sul, no próximo ano, na Embrapa Agropecuária Oeste. O objetivo inicial das novas instalações será monitorar as bacias hidrográficas dos rios Ivinhema, Dourados e Amambai, na região sul do Estado, áreas de intensa atividade agrícola, especialmente soja, milho e cana-de-açúcar.

A construção do novo laboratório e a aquisição dos equipamentos serão realizadas por meio de parceria entre Embrapa Agropecuária Oeste, Ministério Público Federal (MPF/MS), Ministério Público do Trabalho (MPT/MS), Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul (MPMS) e Instituto de Meio Ambiente de Dourados (Imam). Trata-se de um empreendimento de interesse conjunto. As instituições públicas de fiscalização necessitam de análises técnicas sobre possíveis contaminações com agrotóxicos e a Embrapa pretende utilizar as informações coletadas para fins científicos e desenvolvimento de procedimentos e tecnologias sustentáveis.

O projeto é dividido em fases. Na primeira, o monitoramento de resíduos de agrotóxicos será realizado nas três bacias hidrográficas citadas. A expectativa é de que, em 2017, comecem as obras, com R$ 524 mil de aporte financeiro do MPMS, somados a R$ 606 mil do Imam, além de outros recursos dos MPs investidos na compra de equipamentos e produtos para análise das amostras. As futuras instalações somarão 363 metros quadrados e abrigarão equipamentos de última geração voltados à detecção de substâncias químicas, como cromatógrafo líquido de ultraperformance com espectrômetro de massa, cromatógrafo gasoso com espectrômetro de massa, cromatógrafo líquido com detector de arranjo de diodos, cromatógrafo gasoso com detector de captura de elétrons e NPD. O novo laboratório terá capacidade de realizar, aproximadamente, 200 amostras por mês para as pesquisas.

O pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste Rômulo Penna Scorza Júnior, coordenador técnico do projeto, acredita que o laboratório potencializará os trabalhos da empresa. “Esse monitoramento é muito importante para avaliarmos se as tecnologias estão sendo utilizadas da forma preconizada, ou se está havendo algum impacto ambiental. Se necessário, poderemos até modificar algumas tecnologias para evitar contaminação. O foco é o uso de agrotóxico, mas existe todo um contexto dentro do sistema de produção. Gerar essas informações será muito benéfico para toda a sociedade, inclusive, para o setor produtivo, porque ele próprio quer conhecer essa situação”, afirma Scorza Júnior.

O projeto tem duração de dez anos, com renovação a cada dois anos, mediante a apresentação dos resultados pela Embrapa. A partir das análises, será gerado anualmente um relatório com os resultados técnico-científicos (quantitativo e qualitativo) do monitoramento das águas superficiais com acesso público. E os ministérios públicos podem solicitar à empresa os resultados parciais sobre o estado dos rios e lagos a respeito da presença ou não de resíduos de agrotóxicos.

O pesquisador afirma que o novo laboratório garantirá qualidade do preparo e identificação e quantificação das amostras de água que serão coletadas nas bacias hidrográficas. “Atualmente, temos um laboratório de monitoramento de resíduos de agrotóxicos na Embrapa Agropecuária Oeste. Mas, para atuar com o monitoramento, é importante trabalharmos em um local compartimentado para todo o processo de análise e com algumas técnicas que confirmem a ‘impressão digital’ das moléculas analisadas”, destaca Scorza Júnior, que conta com o auxílio do laboratorista Paulo Vitro, também da unidade da Embrapa em Dourados.

Para o procurador  Marco Antonio Delfino de Almeida, do MPF em MS, uma importante vantagem do laboratório será a de permitir a realização local desse monitoramento. “Atualmente, as amostras são enviadas para análise no Laboratório Evandro Chagas, em Belém, no Pará. A distância impõe limitações nas análises, tanto na periodicidade [de envio] das amostras quanto no quantitativo de agrotóxicos abrangido”, informa.

O diretor do Imam, Upiran Jorge Gonçalves da Silva, diz que a instalação do laboratório é essencial para o Estado e que o município de Dourados não poderia ficar de fora desse projeto. “Considerando que a Embrapa é uma instituição federal, os ministérios públicos são estaduais, a participação do município para as pesquisas de monitoramento de agrotóxicos nesse projeto é de suma importância. Por isso, o Imam investiu os recursos para a instalação desse laboratório na Embrapa”, afirma.

INFRAESTRUTURA

As pesquisas da Embrapa Agropecuária Oeste no projeto começaram em dezembro de 2015 com a aquisição, pelo MPT/MS, do equipamento chamado cromatógrafo gasoso com espectrômetro de massas (GC-MS), no valor de R$ 378 mil. O equipamento separa e analisa simultaneamente as moléculas dos agrotóxicos das amostras de água e assim é possível identificar e quantificar o agrotóxico presente na amostra.

Outro material essencial para os trabalhos são os padrões analíticos dos agrotóxicos mais utilizados nas três culturas de Mato Grosso do Sul. Os padrões, adquiridos com recursos de custeio do MPF (R$ 20 mil em 2016 e R$ 45 mil em 2017), são como uma biblioteca com todos os agrotóxicos puros.

Para validar o método analítico de identificação e quantificação dos agrotóxicos presentes nas amostras (método multirresíduo), serão necessários cerca de oito meses. “Fizemos um trabalho de priorização de agrotóxicos, por meio de um levantamento dos agrotóxicos mais utilizados nas três culturas de Mato Grosso do Sul, com base no comportamento ambiental. Com isso, estamos desenvolvendo um método para identificar esses produtos químicos de forma confiável. Se for necessário acrescentarmos um novo agrotóxico futuramente, é só validar o método novamente, o que será um processo mais rápido”, garante o pesquisador.

Scorza Júnior enfatiza e reforça que o potencial de contaminação de águas superficiais por agrotóxicos está relacionado à característica do produto, não só quanto à frequência de uso. “Os fatores estão relacionados ao tipo de agrotóxico; à época em que o produto é aplicado e à ocorrência de chuvas intensas logo em seguida; e à proximidade dos campos agrícolas das águas superficiais, locais onde não há proteção pelas  matas ciliares”, explica.

Os pontos de amostragem serão locais onde o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) já realiza coleta de amostras de água para avaliação e monitoramento da qualidade da água quanto à presença de compostos inorgânicos, como dejetos de esgoto e de indústria. “Nosso projeto vai complementar o trabalho realizado pelo Imasul. Vamos buscar uma cooperação com o instituto para que as amostras colhidas pela equipe do Imasul sejam enviadas para a Embrapa Agropecuária Oeste analisar os resíduos de agrotóxicos”, diz Scorza, comentando que, dessa forma, o monitoramento será semelhante em termos de amostragem.

APOIO A INVESTIGAÇÕES

Segundo o promotor do MPMS, Amilcar Araujo Carneiro Junior, com o resultado das análises sobre a quantidade de substâncias agrotóxicas e o seu grau de interferência na qualidade das águas nas bacias hidrográficas do Estado, o Ministério Público poderá realizar investigações para apurar e identificar quais são as condutas e atividades que causam efetivamente o dano ambiental e prejuízo à saúde da população sul-mato-grossense. “De posse do resultado das análises que poderão fundamentar tais investigações, pode-se também iniciar um trabalho de prevenção junto a todos aqueles que exercem atividades ligadas a agrotóxicos. São vários municípios afetados, envolvendo diversas promotorias de Justiça, que até o momento sentem a falta de elementos para trabalhar com a questão dos agrotóxicos. Provavelmente, haverá uma proposição de trabalho em conjunto entre todas elas, buscando a uniformidade de atuação”, observa Carneiro.

“O uso desmedido de agrotóxico relaciona-se muitas vezes a um aspecto preponderantemente cultural, passado de geração a geração, sem a preocupação de se adotar formas alternativas a sua utilização”, observa o procurador do Trabalho, Jefferson Pereira, da Procuradoria do Trabalho de Dourados. 

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