Ultrapassagem de Flávio e desempenho de seus aliados projetam dificuldades enormes para o presidente; PT tem votação abaixo do esperado
A arrancada dos bolsonaristas no primeiro turno das eleições gerais ontem foi um fato político de repercussão. Pelo avanço das forças de Flávio Bolsonaro (PL) e por seus próprios erros, o presidente Lula (PT) chega à segunda rodada emparedado.
Se havia o receio entre petistas de que um empate ou uma vantagem mais estreita do filho de Jair Bolsonaro no primeiro turno deixaria o tira-teima difícil, a situação do presidente se tornou dramática, embora não seja irreversível.
A seu favor, há a possibilidade de que a migração dos nanicos à direita que perderam força no pleito tenha atingido o limite, mas é incerto onde Lula poderá buscar votos, salvo por acontecimentos imprevisíveis. A aposta indicada em sua primeira fala é a comparação de biografias, algo difícil de medir.
O resultado surpreende quando é observada a curva das intenções de voto da campanha anódina, marcada pela contaminação do caso do Banco Master no Judiciário, e não, como seria racional imaginar, na candidatura de Flávio, envolvido com Daniel Vorcaro.
Mas o movimento bolsonarista já se insinuava no fim da corrida, como indicava o Datafolha na véspera. Ele absorveu não apenas boa parte da esquerda, mas a própria direita mais moderada.
E Lula, acima de tudo, perdeu a liderança para si mesmo. Sua campanha foi marcada por três defesas.
Na defesa da democracia, Lula aproveitou a balbúrdia bolsonarista do 8 de Janeiro para assumir a bandeira da democracia. Deu certo por algum tempo, mas, a partir de meados de 2023, o petista passou a contar apenas com a bancada de Alexandre de Moraes no Supremo. O preço foi conhecido neste ano.
No caso da soberania, Donald Trump deu ao presidente um presente com seu tarifaço e punições de 2025. Ele pôde assumir a defesa do interesse nacional, ganhou pontos na avaliação e ainda dobrou o americano.
Embora não tenha ocorrido um ataque frontal como o Planalto temia, a estratégia não funcionou eleitoralmente.
Também estão os números frios. O lulismo reclama da falta de reconhecimento dos bons indicadores da economia, mas esqueceu o contexto. Se o desemprego está em baixa, basta caminhar por grandes cidades para enxergar onde estão os postos de trabalho. A inflação pode estar sob controle, mas o endividamento das famílias eliminou qualquer sensação de bem-estar.
Talvez entorpecido pela segurança que a aliança com o Supremo lhe dava diante do Congresso à direita, o governo passou quatro anos vendo PL, Centrão e PSD montarem máquinas eleitorais para o controle de emendas parlamentares.
Lula ficou com palanques e bancadas potenciais fracas. Tudo isso trouxe uma capilaridade ao discurso antipetista que nem mesmo o carisma do presidente conseguiu conter, apesar de um arsenal de emergência com proibição de bets, fim da escala 6x1 e reajuste do Bolsa Família.
Candidato Teflon
De seu lado, Flávio vestiu o figurino teflon. Candidato com o maior passivo judicial na disputa, passou meses quase sem precisar se expor – a ausência do debate, uma escolha também de Lula, só o favoreceu.
Quando os questionamentos chegaram, era tarde, e a dissolução da realidade na vida digital facilitou sua trajetória: qualquer investigação da Polícia Federal vira perseguição, dúvida sobre medalha para miliciano, detalhe.
Não é diferente do que aconteceu com o maior ícone do bolsonarismo, Trump, eleito apesar de uma condenação criminal. Para manter o exemplo americano, Lula acabou encarnando o Joe Biden que os petistas menos deslumbrados temiam: um candidato desgastado.
Agora, o político brasileiro mais importante do século 21 no País terá de enfrentar o risco de encerrar a carreira em derrota. Ou uma vitória de Pirro, com a estrutura política dominada por adversários, sem falar nas eventuais pressões vindas dos EUA.
Flávio contará com o sentimento de virada, que muitas vezes define eleições. Isso deverá atrair apoios antes improváveis. Ele nunca foi a escolha do condomínio da centro-direita sequestrado pela vanguarda bolsonarista, mas isso tende a mudar.
Eventual triunfo será apenas o começo. Se vencer ao fim, contudo, terá de conviver com um ecossistema de aliados com interesses próprios, como o governador reeleito com folga em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).