Artigos e Opinião

ARTIGO

Angela Maria Costa: "Educar para quê?!!!"

Professora doutora da UFMS / Membro do movimento Por uma cidade democrática

Redação

05/05/2016 - 02h00
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É preciso toda uma aldeia para educar uma criança (provérbio africano).

O Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI – EDUCAÇÃO: um tesouro a descobrir, observa que, à educação deve fornecer, de algum modo, o mapa de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele. Afirma que a educação permanente baseia-se em quatro pilares do conhecimento: 1) Aprender a conhecer - aprendendo a aprender, para se beneficiar pelas oportunidades de aprender pelo resto da vida; 2) aprender a fazer - adquirindo qualificação profissional e competência para enfrentar numerosas situações transformadoras no trabalho; 3) Aprender a viver juntos – desenvolvendo a compreensão e o respeito pelos valores do pluralismo e da compreensão mútua da paz; e 4) aprender a ser, que engloba todos os demais, para melhor desenvolver a sua personalidade e capacidade de autonomia, de discernimento e de responsabilidade social. Essa educação permanente (para toda vida) se dá nas instituições sociais (Família, Escola, Igreja e Estado) que articuladamente, estabelecem as regras e os procedimentos, para os indivíduos viverem harmoniosamente em uma determinada sociedade. Todos nós somos resultado dessa educação compartilhada e é por meio dela que enxergamos, analisamos, e agimos no nosso cotidiano.

Até há pouco tempo, sabia-se claramente o que queriam essas instituições, porque tinham como motivação comum o TRABALHO, e com isso o fortalecimento dos valores de OBEDIÊNCIA, RESPONSABILIDADE e até de SUBSERVIÊNCIA. Hoje vivemos em um mundo muito diferente do vivido pelas gerações passadas e sequer sabemos como será no futuro. Qualquer pessoa que tenha mais de quarenta anos de idade, sabe que a matemática que lhes ensinaram na escola é velha; a gramática obsoleta; a biologia totalmente ultrapassada e que a história é suscetível de sérias contestações. Somos uma enciclopédia ambulante de informações arcaicas, da era pré-histórica, isto é, antes do Google! 

O debate recente trazido pelo movimento Escola Sem Partido, de que o papel da ESCOLA é somente o de transmitir conhecimentos, isto é, ensinar matemática, português, história, geografia e ciências, cabendo à família a educação moral, encontra forte e natural resistência no meio educativo.  O fato é que os problemas da sociedade não podem ser deixados à porta da escola: pobreza, fome, violência, tolerância, sexo, droga entram com os alunos nas instituições de ensino. Cabe ao professor, baseado na forte relação de confiança estabelecida entre ele e o aluno, esclarecer sobre os assuntos que os pais, instituições religiosas e poderes públicos falharam. Isto é inerente e a cerne do processo educativo. Essa relação pedagógica, estudada nos cursos de formação profissional, visa o pleno desenvolvimento do aluno e no respeito a sua autonomia. A ÉTICA que rege as demais profissões rege também o exercício profissional do PROFESSOR. Uma escola que pretende apenas aplicar um dos pilares do conhecimento – ENSINAR ou TREINAR, é uma escola sem função, fadada a formar seres subjugados, presos a seus preconceitos, subservientes e imprestáveis para uma nova sociedade.

A missão primordial da EDUCAÇÃO é de conferir a todos a liberdade de pensamento, discernimento, de que necessitarão para desenvolver os seus talentos, de modo a tornarem-se donos do seu próprio destino. Somos totalmente contra a LEI DA MORDAÇA, ou como gosto de nominar, a LEI DO AVESTRUZ.  O veto do executivo a essa lei, foi um ato de respeito a toda uma categoria profissional. Aguardamos o posicionamento do poder legislativo, lembrando-os que - Nós não somos homens que formamos homens para que sejam iguais a nós. Nós somos homens que formamos homens para que sejam livres de toda servidão. (Pèguy).
 

 

ARTIGOS

As bets estão esvaziando o carrinho de compras do brasileiro

As bets transformaram-se em um dos principais destinos da renda disponível dos brasileiros, alterando significativamente a dinâmica do consumo

11/08/2026 07h20

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Durante décadas, o varejo brasileiro disputou espaço diretamente com outros varejistas. A concorrência acontecia entre supermercados, lojas de departamento, farmácias e, posteriormente, marketplaces e e-commerces.

Hoje, um novo competidor passou a disputar o mesmo orçamento das famílias e ele sequer vende produtos. As plataformas de apostas esportivas, popularizadas como bets, transformaram-se em um dos principais destinos da renda disponível dos brasileiros, alterando significativamente a dinâmica do consumo.

Impulsionadas pela forte presença publicitária, o acesso facilitado via smartphones e a regulamentação do setor, as apostas on-line não são apenas uma opção de entretenimento, elas competem diretamente com despesas que antes eram destinadas ao comércio, ao lazer, à aquisição de bens duráveis e até mesmo à formação de reservas financeiras.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança, segundo o levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aproximadamente R$ 100 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro somente em 2024 para serem direcionados às plataformas de apostas.

Esse montante representa bilhões que deixaram de movimentar supermercados, farmácias, lojas de roupas, eletrodomésticos, restaurantes e inúmeros outros segmentos responsáveis pela geração de emprego e renda.

Antes, quando uma família tinha algum recurso disponível, esse valor costumava ser destinado à compra de um bem durável, à reforma da casa, a uma viagem, ao vestuário, ao lazer ou mesmo à construção de uma reserva financeira.

Hoje, parte desse orçamento passou a alimentar uma economia paralela, baseada na expectativa de retorno rápido e no estímulo constante ao consumo das apostas, e essa mudança de destino do dinheiro afeta muito mais do que o caixa das lojas.

Quando uma compra deixa de acontecer, toda uma cadeia econômica perde movimento.

Fabricantes reduzem pedidos, distribuidores diminuem operações, transportadoras movimentam menos cargas, centros de distribuição operam abaixo da capacidade e pequenas empresas passam a enfrentar mais dificuldades para manter fluxo de caixa e rentabilidade.

O impacto se espalha por diversos setores produtivos e chega, inevitavelmente, ao mercado de trabalho.

O desafio se torna ainda maior porque o varejo passa a enfrentar um concorrente completamente diferente daquele com o qual estava acostumado.

Não se trata mais apenas de oferecer preços competitivos ou melhores condições de pagamento, agora, disputa-se um recurso muito mais escasso: a atenção do consumidor e sua renda disponível.

Mais do que investir em promoções, o varejo precisará fortalecer sua capacidade de gerar valor percebido, construir relacionamentos duradouros, ampliar programas de fidelização e utilizar inteligência de dados para compreender, com maior precisão, as novas prioridades de consumo dos brasileiros.

O varejo brasileiro sempre soube competir entre si, mas o grande desafio desta década será aprender a competir com negócios que sequer fazem parte do comércio tradicional, mas que passaram a disputar exatamente o mesmo dinheiro do consumidor.

Afinal, cada real destinado a uma aposta é, potencialmente, um real que deixa de movimentar a economia produtiva. Essa talvez seja uma das mudanças mais profundas do comportamento de consumo no Brasil, e ignorá-la pode custar muito mais do que perda de vendas.

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Sem advocacia não há Justiça

Não se trata de privilégio de uma profissão, trata-se na verdade de uma garantia da sociedade

11/08/2026 07h15

Bitto Pereira, Advogado e presidente da OAB-MS

Bitto Pereira, Advogado e presidente da OAB-MS Divulgação

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Há uma razão para a Constituição Federal ter reservado à advocacia uma posição singular entre as instituições essenciais à Justiça. O artigo 133 estabelece, de maneira inequívoca, que “o advogado é indispensável à administração da justiça”.

Onde existe um cidadão sofrendo o arbítrio do poder do Estado deve existir a possibilidade de defesa. Onde existe uma acusação deve existir contraditório.

Onde há ameaça a um direito deve haver alguém preparado para defendê-lo. A advocacia existe exatamente nesse espaço: entre o poder arbitrário e o cidadão, entre a acusação e a defesa, entre o conflito e a aplicação justa da lei.

Por isso, devem ser fortemente repelidas manifestações que possam transmitir à sociedade uma compreensão equivocada sobre o papel do advogado.

Recentemente, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao relatar sua própria experiência como acusado, afirmou que “advogado criminalista não sabe defender inocente, criminalista defende bandido”.

A afirmação foi absolutamente infeliz. E a crítica aqui não é política nem partidária, é institucional. O advogado criminalista não defende o crime, o advogado resguarda o direito de defesa na forma da lei. 

Essa distinção é fundamental em qualquer democracia.

Defender alguém acusado da prática de um crime não significa concordar com sua conduta, muito menos legitimá-la, significa exigir que o Estado respeite a Constituição, o devido processo legal, o contraditório, a presunção de inocência e os limites impostos ao exercício do poder de punir.

Aliás, as garantias constitucionais revelam sua verdadeira importância justamente nos momentos em que é mais difícil defendê-las. Direitos fundamentais não existem apenas para causas fáceis ou para aqueles cuja inocência seja evidente, existem para mim, para você e para todos.

A advocacia questiona, recorre, aponta excessos e exige o cumprimento das leis. E precisa ser assim. Uma advocacia independente e respeitada não serve apenas aos advogados, serve ao cidadão e à democracia.

Neste dia 11 de agosto, Dia da Advocacia, mais do que celebrar uma profissão, devemos reafirmar que a nossa profissão sempre foi e sempre será indispensável ao Estado Democrático de Direito, porque onde não existe uma advocacia plena e respeitada não existe a verdadeira Justiça.

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