Artigos e Opinião

OPINIÃO

Wagner Cordeiro Chagas: "MS 40 anos: a nomeação do primeiro governador"

Mestre em História pela UFGD e professor em Fátima do Sul

Redação

11/05/2017 - 01h00
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Caro leitor/leitora, a partir deste mês até outubro do presente ano, quando Mato Grosso do Sul completa 40 anos de criação, pretendo compartilhar com você pequenas produções a respeito de alguns aspectos da história política de nosso estado. As mesmas têm como foco levantar características das gestões administrativas estaduais, desde Harry Amorim Costa até Reinaldo Azambuja Silva. Características que, sem dúvida, interferiram nas vidas de muitos sul-mato-grossenses, pois, de acordo com o historiador francês René Rémond, por muito tempo a História Política valorizou a trajetória de governantes e seus feitos, esquecendo-se do restante da população, como se as atitudes políticas não alterassem as vidas dos habitantes do local administrado. 

Estes textos são frutos de longa pesquisa, iniciada no ano de 2007, por meio de visitas a arquivos de jornais, da Assembleia Legislativa e do Centro de Documentação Regional da FCH-UFGD. Tudo começou nos bancos universitários, quando aproveitei a oportunidade de iniciar a prazerosa vida da pesquisa acadêmica. Ao final dessa jornada almejo publicar o resultado da mesma em forma de livro. Neste primeiro, apresento como se deu a escolha do primeiro governador do estado.

Logo após a criação de Mato Grosso do Sul pela ditadura militar (assunto que abordarei com mais detalhes na semana do 40º aniversário), por meio da Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977, as discussões em torno do nome daquele que seria escolhido o primeiro governador aumentaram, isto porque alguns meses antes da divisão, o nome do ex-governador de Mato Grosso uno, entre 1966 e 1970, Pedro Pedrossian, era o mais cotado, dentro da ala “independente” da Aliança Renovadora Nacional (Arena) estadual. É válido lembrar que no período ditatorial, entre 1966 e 1981, a população perdeu o direito de eleger o governador.

A possível indicação de Pedro Pedrossian desencadeou um debate intenso nos bastidores políticos e na imprensa, pois a ala dos “ortodoxos” da Arena não aceitava aquele nome. A briga política entre as facções da Arena, na verdade vinha dos tempos em que Pedro Pedrossian governara Mato Grosso e enfrentara um processo conturbado em que a Assembleia Legislativa instalou um processo de impeachment contra ele. O então governador teve seu mandato poupado graças à forte influência de seu padrinho político, o então senador Filinto Müller.

Enfim, o fato é que Pedro Pedrossian não conseguiu ser nomeado, como tanto desejava. Chegar a um nome de consenso para governar o estado foi algo que ganhou as manchetes dos jornais sul-mato-grossenses entre fins de 1977 e março de 1978, mês em que, conforme a Lei Complementar nº 31, era o limite para a indicação do chefe do Executivo. 

No mês de dezembro de 1977, os senadores Rachid Saldanha Derzi e Antônio Mendes Canale (ambos da Arena-MS) tiveram seus nomes divulgados numa suposta lista, destacando-se entreos mais lembrados para assumir o cargo. No entanto, a partir de março de 1978, passou-se a divulgar que o ministro do Interior, Maurício Rangel Reis, teria sido convidado pelo presidente Ernesto Geisel para exercer a função de governador.

De acordo com matérias jornalísticas, Rangel Reis estaria disposto a atender ao pedido do presidente, mas teria em mãos uma lista com os possíveis nomes de políticos locais que se interessavam pelo cargo. Outra especulação foi publicada em 14 de março: um novo nome vinha à baila, o do chefe da Superintendência para Desenvolvimento do Centro Oeste (Sudeco), Julio Arnold Laender. 

Por fim, nenhum desses líderes foi escolhido. A 22 de março saiu definitivamente a escolha do primeiro governador de Mato Grosso do Sul: Harry Amorim Costa, engenheiro e diretor-geral do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (Dnos), que, conforme “O Progresso”, o presidente Ernesto Geisel teria conhecido em 1975, durante uma reunião da Sudene, em Recife. Geisel teria gostado do trabalho do engenheiro na construção de obras de contenção de enchentes em Pernambuco. Teria sido este um dos motivos para nomeá-lo.

Assim, entre discussões no interior de gabinetes palacianos, como fora boa parte das conversas sobre a criação do estado, iniciava-se a história administrativa de Mato Grosso do Sul. No próximo artigo apresento um histórico da primeira gestão a administrar o estado: a de Harry Amorim Costa.

EDITORIAL

Sem espaço para velhos vícios

O poder público abriu mão de manter estrutura própria para serviços de manutenção viária e pavimentação, ao deixar de renovar seu maquinário e depender da terceirização

30/06/2026 07h15

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A manutenção das vias urbanas é uma das obrigações mais elementares de qualquer administração municipal. Ruas em boas condições garantem segurança, reduzem prejuízos aos motoristas, melhoram a mobilidade e preservam o patrimônio público.

Por isso, é positivo que a Prefeitura de Campo Grande demonstre pressa para regularizar os contratos destinados à chamada operação tapa-buraco. O problema é que a boa vontade, por si só, não resolve a urgência enfrentada diariamente pela população.

Conforme mostramos nesta edição, os novos contratos somente deverão entrar em vigor em agosto, respeitando todas as etapas exigidas pelo processo licitatório.

Trata-se de um procedimento indispensável para assegurar legalidade, transparência e ampla concorrência. Entretanto, até que isso ocorra, a cidade continuará convivendo com um cenário de ruas deterioradas.

É justamente nesse intervalo que a administração municipal precisa demonstrar capacidade de gestão. Não basta aguardar a conclusão da licitação enquanto o problema se agrava. É necessário encontrar soluções emergenciais que permitam minimizar os transtornos, sempre observando o princípio da economicidade.

Afinal, os recursos públicos são limitados e devem ser empregados de forma responsável, sem improvisações que acabem custando ainda mais aos cofres municipais.

A situação atual também convida a uma reflexão sobre decisões tomadas ao longo das últimas décadas. Em nome de um modelo de terceirização que, na prática, mostrou-se pouco eficiente, o poder público abriu mão de manter estrutura própria para executar serviços de manutenção viária e pavimentação.

Pouco a pouco, deixou de renovar seu maquinário, tornando-se cada vez mais dependente da contratação de empresas privadas até mesmo para intervenções emergenciais.

Essa dependência trouxe consequências conhecidas pelos campo-grandenses. Ao longo dos últimos 15 anos, diferentes investigações do Ministério Público apontaram suspeitas envolvendo contratos de manutenção de vias, alguns deles relacionados com empresas investigadas por corrupção.

Como se isso não bastasse, a administração pública ainda recorreu a contratos de locação de equipamentos considerados escandalosos, celebrados com empresas registradas em nome de laranjas, enquanto sua própria frota se deteriorava sem reposição adequada.

Esse histórico demonstra que o problema nunca foi apenas operacional.

Foi também consequência de escolhas administrativas equivocadas, que reduziram a capacidade do município de responder rapidamente às demandas da população e aumentaram sua vulnerabilidade a contratos malsucedidos e a práticas incompatíveis com a boa gestão pública.

A nova contratação representa, portanto, mais do que a retomada da operação tapa-buraco. É uma oportunidade para romper definitivamente com um modelo que acumulou ineficiência, desperdício e suspeitas.

Espera-se que os novos contratos sejam conduzidos sob critérios rigorosos de integridade, ampla concorrência, fiscalização permanente e absoluta transparência.

Artigo

A Copa do Mundo e geopolítica

A realidade, porém, conta outra história. A Copa nunca foi apenas um torneio de futebol assim como as Olimpíadas

29/06/2026 07h30

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À medida que a Copa do Mundo de deste ano começa a mobilizar torcedores ao redor do mundo, muitos insistem em repetir uma frase bastante conhecida: esporte e política não se misturam.

A realidade, porém, conta outra história. A Copa nunca foi apenas um torneio de futebol – assim como as Olimpíadas.

Ela é também um fenômeno político, econômico e geopolítico, capaz de reverberar tensões internacionais, disputas de poder e transformações globais.

Os acontecimentos das últimas semanas deixam isso evidente. Os Estados Unidos, uma das três sedes do torneio, adotaram políticas migratórias que já afetam diretamente a competição.

Integrantes da delegação iraniana enfrentaram dificuldades para obter vistos, parte da equipe precisou transferir sua base para o México e autoridades esportivas do país denunciaram tratamento discriminatório.

Ao mesmo tempo, torcedores e oficiais de diferentes nacionalidades relataram obstáculos para ingressar em território norte-americano, transformando um evento esportivo em mais um capítulo dos debates sobre fronteiras, segurança internacional e soberania.

O caso iraniano é particularmente simbólico. Num momento de forte tensão entre Washington e Teerã, o simples deslocamento de jogadores, dirigentes e torcedores tornou-se uma questão diplomática.

O futebol, nesse contexto, deixa de ser apenas entretenimento para se tornar um espaço em que rivalidades internacionais continuam negociadas.

Mas a relação entre Copa do Mundo e geopolítica vai muito além dos conflitos diplomáticos mais evidentes.

Em diversos momentos da história, o torneio serviu para expressar mudanças na ordem internacional.

Quando a seleção da Croácia estreou na Copa do Mundo em 1998, por exemplo, não estava apenas disputando partidas de futebol em prol do entretenimento dos torcedores.

A seleção estava simbolizando a consolidação de um novo Estado surgido após o colapso da Iugoslávia.

Da mesma forma, a participação de países recém-independentes ao longo das últimas décadas representou uma forma de reconhecimento internacional e afirmação de soberania.

Quando a Bósnia e Herzegovina disputou sua primeira Copa do Mundo, em 2014, sua participação foi celebrada não apenas como uma conquista esportiva, mas como um símbolo da reconstrução de um país que duas décadas antes havia sido devastado por uma das guerras mais violentas da Europa contemporânea.

A seleção tornou-se uma representação da própria sobrevivência do Estado Bósnio e de sua busca por reconhecimento e estabilidade no cenário internacional.

Em outra dimensão, os países do Golfo transformaram o futebol numa importante ferramenta de projeção de poder. Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passaram a investir bilhões de dólares em clubes, competições, patrocínios e grandes eventos esportivos, utilizando o esporte como instrumento de projeção global para ampliar sua influência, diversificar as economias e fortalecer a imagem internacional.

Outro exemplo pouco lembrado envolve a escolha das sedes. A disputa para sediar uma Copa do Mundo costuma mobilizar governos, empresas privadas e diplomatas durante anos. Receber o torneio significa projetar uma imagem internacional, atrair investimentos e demonstrar capacidade organizacional e de Engenharia.

Não por acaso, países emergentes frequentemente enxergam o evento como uma ferramenta de soft power, utilizando o esporte para fortalecer sua reputação global.

A geopolítica também aparece nas questões econômicas. Em números, a Copa do Mundo deste ano será a maior da história, com 48 seleções e 104 partidas. Isso envolve negociações complexas sobre infraestrutura, segurança, transporte, telecomunicações, direitos de transmissão e circulação de pessoas.

Em outras palavras, a Copa funciona como uma gigantesca operação internacional que depende da cooperação e, muitas vezes, dos conflitos entre governos, empresas e organizações multilaterais.

Mesmo temas aparentemente distantes do futebol acabam influenciando o torneio. Questões migratórias, políticas de segurança, sanções econômicas, relações diplomáticas e até debates sobre direitos humanos passaram a fazer parte da preparação para o Mundial.

Organizações internacionais já alertam para possíveis impactos das políticas de imigração, fiscalização de fronteiras e monitoramento de visitantes durante a competição.

Talvez o maior equívoco seja imaginar que a política invade o esporte. Na verdade, o esporte sempre esteve inserto na política.

Afinal, seleções representam Estados nacionais, torcedores atravessam fronteiras, governos financiam infraestrutura e organismos internacionais estabelecem regras para a realização dos torneios.

A Copa do Mundo continua um espetáculo esportivo extraordinário – não apenas para quem gosta de futebol.

Ela também funciona como uma janela privilegiada para observar o mundo. Ao acompanhar os jogos, vale a pena prestar atenção não somente no que acontece dentro dos estádios. Muitas vezes, as histórias mais reveladoras estão acontecendo nos bastidores.

E compreender essas conexões é fundamental para entender não só o futebol, mas também a dinâmica das relações internacionais no século 21.

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