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Campo Grande - MS, quarta, 21 de novembro de 2018

ARTIGO

Thiago Cyles da Silva Oliveira: O banheiro

Thiago Cyles da Silva Oliveira é mestre em Letras-UEMS

8 SET 2017Por 01h:00

Todo acadêmico de curso de licenciatura um dia imaginou o seu futuro como professor e temeu um dia ser interrogado por um aluno, de cuja pergunta não teria resposta. Eu em quase uma década de magistério, por poucas vezes tenho passado por tal situação. Não que eu saiba a resposta de todas as perguntas, longe de mim. Mas o fato é que cada vez menos as perguntas surgem.

Diante dos alunos, o professor faz malabarismos didáticos para chamar a atenção deles. Já tentou os métodos tradicionais de passar todo o conteúdo no quadro, ou ditar tudo em voz lenta. Foi vão. Já usou toda a parafernália tecnológica de sala de vídeo, informática, auditório.  Já lançou mão de lousa digital e todos os data-shows da escola para exibir toda sorte de vídeos, músicas e slides. Sem sucesso. Voltou para o conhecimento de papel na biblioteca. Nada. Já estudou Piaget, Vygotsky, Montessori, Paulo Freire e Paulo Coelho. Cansou-se. E chega à conclusão que nada supera a boa e velha explicação das aulas expositivas. Alunos enfileirados, sentados, quietos e ouvindo tudo o que sábio fala, de preferência sem fones de ouvido.

E o professor esperto aproveita o tédio e o sono de uma manhã de primeiro tempo na segunda-feira para mostrar tudo o que sabe. Fala sem parar, conta histórias, dá opiniões políticas e pessoais, fala de religião, de futebol, incita polêmicas. Nada acontece.

A sala permanece em um silêncio sepulcral. De repente aparece um dedo aceso e levantado no fim do túnel da sala. Sim! Vai ter uma pergunta! Uma dúvida! Uma contra argumentação! Um rebate! Um debate! Um confronto de ideias! Um incitador de gerações! Alguém vai liderar a moçada e vão sair todos com cartazes improvisados em folhas de caderno e em papel pardo pelos corredores da escola, levantando a bandeira em prol de alguma luta! Nem que seja pela diminuição do preço do salgado na cantina.  E o professor se sentirá orgulhoso e satisfeito por um dia ter sido um formador de opinião. 

Mas o aprendiz de Che Guevara apenas pede a vez na fala e discursa humildemente: “Posso ir ao banheiro? ”. Ao que nos anseios mais profundos de sua alma, o professor responde: “Pode. E de preferência, não se esqueça de dar descarga em si mesmo”.
 

Não importam quantos atrativos tenha uma escola, Quadras de esporte imensas, bibliotecas fartas e gigantescas, laboratórios com computadores ultramodernos, astrolábios, departamentos de física, química, matemática. Não adiantam as regras impositivas da proibição no primeiro tempo, após intervalo e último tempo.

De nada adiantam inspetores e coordenadores no pátio. Não adiantam cartões de autorização e acesso, o lugar mais cobiçado da escola sempre será o banheiro. Não por uma necessidade fisiológica. Não por fazer do espaço um lugar de subversão, mas porque em geral, de todos os lugares que um jovem frequenta, onde ele menos deseja estar é a sala de aula. E a ida ao banheiro torna-se um subterfúgio infalível.

É um argumento irrevogável, inquestionável, irrefutável. E o pobre professor nunca terá como comprovar a veracidade ou a desfaçatez do pedido do aluno. E nessa hora, não lhe faltará a lembrança de quando viu um coleguinha de infância consumar o ato nas próprias calças em meio à aula, porque um professor carrasco não permitiu a ida ao banheiro.

Fico imaginando se as salas de aula de ensino fundamental e médio fossem como as antigas salas de prézinho, em que o banheiro e o bebedouro já ficavam dentro da sala. Se assim fosse, das duas, uma. Teríamos um problema muito maior, pois os alunos continuariam num trânsito incessável dentro da própria sala. Ou teríamos gênios concentradíssimos em tudo o que o mestre professasse. Ou quem sabe, tudo permaneceria igual, na escola pública ou na privada.

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