Fale conosco no WhatsApp

Por sua segurança, coloque seu nome e número de celular para contatar um assessor digital por Whatsapp.

Campo Grande - MS, sábado, 17 de novembro de 2018

OPINIÃO

Thiago Cyles da Silva Oliveira: "A sociedade dos vampiros"

Mestre em Letras

5 AGO 2017Por 01h:00

Hoje muito se fala da ciência que prolonga a vida com alguns hábitos saudáveis ou algumas intervenções. Exercícios físicos, dieta equilibrada, não beber, não fumar, cirurgias plásticas, cremes e remédios milagrosos. Pronto. O eterno elixir da juventude. Com algumas práticas, podemos viver mais e aparentar bem menos do que a idade que realmente temos. Ok. Mas ainda não existe nada, sem injúria física, que seja capaz de tornar as nossas memórias sempre recentes e o passado vivido deletado.

Ao julgar pelo mundo tecnológico, qualquer jovem adulto de 30 e poucos anos pode parecer um idoso, pelas lembranças que traz consigo. A primeira demonstração que tive disso foi quando uma sobrinha pequena, vasculhando meus guardados, encontrou um Walkman antigo no meio das minhas coisas. E lá veio ela com cara de espanto, como se tivesse encontrado um objeto do século passado, e de fato tinha. “O que é isso, tio?”. O rádio estava encostado apenas uns dois, três anos, mas para ela já era obsoleto, ou melhor, desconhecido. E desde então, meu efeito mumificante com as gerações mais novas tem sido cada vez mais constante.

Outro dia, meus alunos ouviam boquiabertos quando expliquei a expressão “cair a ficha”. Eles, que nunca precisaram comprar um cartão telefônico, ou talvez nunca tenham precisado usar um orelhão, não imaginavam que para fazer uma ligação no trambolho inútil que ainda reside em cada esquina precisava-se de ficha um dia, a qual muitas vezes demorava a cair. 

Mas, apesar de tudo que fazem, eles ainda são os mesmos e vivem como eu vivi. Hoje, o sonho de consumo deles é ser youtuber. Pensar que, quando comecei a explorar o site, lá não cabiam vídeos maiores que dez minutos e boa parte do que se procurava não se encontrava. Entendo o fascínio que os jovens de hoje têm pelo celular. Sempre me comportei mais ou menos como eles, só que de maneira muito mais analógica. O êxtase do meu narcisismo era quando encontrava um toca-fitas que também gravava voz. Gravava qualquer bobagem e depois ficava ouvindo repetidas vezes o que eu mesmo tinha falado. E vídeo? Nem se cogitava tal coisa. Só víamos câmera quando alguma prima exibida fazia aniversário e mandava filmar a festa. Quando comprei a minha primeira câmera digital, a primeira filmagem que fiz foi de mim mesmo no espelho. Fui o pioneiro da selfie. 

E os viciados em Netflix? Não há nada de novo nisso. Talvez, na minha adolescência, eu quisesse ver o mesmo tanto de filme que eles veem hoje. A diferença é que na minha época tínhamos de nos contentar com o que passava na Sessão da Tarde ou parar toda a brincadeira na rua e correr para casa e ver Tela Quente. Os mais afortunados podiam alugar VHS, e mais tarde DVDs, na locadora. Hoje, nada disso é preciso. Se o seu filme não está na Netflix, tem grandes chances de ele estar no YouTube. Se não estiver em nem um dos dois, você pode facilmente baixar. Se não quiser ter esse trabalho, é só escolher outro. Existem milhares de outras opções.

E agora a TV é LED e Smart, com acesso à internet. Nunca imaginei tal coisa quando criança. Quando conseguimos adquirir a primeira TV com controle remoto, achamos que nada mais podia nos superar. Afinal, isso ocorreu depois de anos em que usávamos uma televisão, na qual, para sintonizar os canais, era preciso ficar rodando um palitinho vermelho até que a imagem melhorasse, quando melhorava.

Até mesmo, o uso da expressão “no meu tempo” hoje está cada vez mais precoce. Antigamente ela era habitual nos avós octogenários, quando reuniam os netos em roda para contar história. Hoje qualquer garoto do Ensino Fundamental II usa o termo para comparar o seu comportamento com os dos colegas do Ensino Fundamental I.
 E assim vamos vendo tudo simplesmente desaparecer. Já se foram as locadoras de vídeos. O Uber vai aos poucos extinguido os táxis e mototáxis. As bancas de revistas já vendem de tudo, menos revistas. Sumiram os CDs. Ninguém mais precisa ouvir o Lucas do “Amor sem Fim” para saber a tradução da noite. Está tudo no Google.

Cada dia o mundo está mais novo. Cada dia o mundo está mais velho. Não existe tempo para a saudade, porque não existe mais tempo para se acostumar com mais nada. O importante é o amanhã, o ontem e hoje só são lembrados na hora do descarte. Perdoai-nos, Senhor, não sabemos o que fazemos.

Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

Leia Também