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Campo Grande - MS, sábado, 22 de setembro de 2018

Cenas

Sylvia Cesco: 'Ajoelha e pede perdão!'

8 MAR 2018Por 07h:30

Não sou uma cultuadora de lembranças. Não choro o leite derramado. Não me detenho no passado. Bicho esquisito que sou. De modo que, quando conheci em tempos que lá se vão Fernando Pessoa, um dos meus poetas prediletos, tratei logo de me apaixonar pela sua poesia ou pela de algum dos seus heterônimos, porque um deles, mais precisamente Alberto Caieiro, escreveu um verso que traduz perfeitamente meu jeito de ser desde quando me entendo por gente: “O que for, quando for, é que será o que é”.

Mas, quando me vejo diante de algumas coisas aqui nesta minha Morena, me pego pensando que elas poderiam ter sido um pouquinho diferentes... Só um pouquinho. Por exemplo, quando passo pela Rua Antonio Maria Coelho, na quadra que fica entre a Avenida Calógeras e a Rua 14 de Julho, não tem como não me lembrar do meu velho pai: seu nome está ostentado, merecidamente, numa placa que dá nome ao pontilhão da Estrada de Ferro.

Ferroviário humilde, recebeu menção honrosa das mãos de um presidente do Brasil pelos seus relevantes serviços prestados e pela absoluta assiduidade no exercício de sua função. Também foi agraciado com os títulos de cidadão sul-mato-grossense e cidadão campo-grandense, haja vista que nasceu em Avanhadava, cidade paulista.

Nessa quadra, também fica o Clube Nipo Brasileiro, anexo à Escola Visconde de Cairu. Conhecido em tempos passados como Clube Cruzeiro, movimentou a cidade nas décadas de 60, com bons carnavais, shows e bailes com atrações vindas de fora: The Jordans, Renato e Seus Blue Caps, JetBlacks, Wanderlei Cardoso, Os Cardeais, Cassino de Sevilha...

Fui apenas a um desses bailes, mas foi o suficiente para gravar na memória aquele salão incrível, onde elegantes moças e rapazes bailavam ao som da orquestra. Todo enfeitado, o salão era ladeado, na parte superior, por uma romântica sacada. Subindo a rua mais um pouco, fica aquele recanto muito conhecido pelo pessoal de artes plásticas e literatura: o prédio em que viveu nossa mestra Maria da Glória Sá Rosa. Mas isso é assunto para uma outra ocasião.

Hoje quero compartilhar com vocês um “causo” que guardei comigo e que ocorreu dentro do Cine Rialto, onde atualmente funciona a Igreja Seicho-No-Iê. Fundado em 1947, teve suas atividades encerradas no início dos anos setenta, levando com ele os sonhos, as alegrias, as fantasias, os risos e os prantos de toda uma geração.

Pois foi lá que vivi uma situação cômica, não fosse trágica, para uma romântica adolescente que só queria assistir, comendo pipoca, ao clássico longa-metragem “Candelabro Italiano”. Fui com uma amiga mais velha, devidamente acompanhada do seu noivo, tendo recebido da mãe dela a honrosa incumbência de “segurar vela” (quem é da minha idade, sabe o significado dessa expressão).

Mas, durante o filme, minha atenção esteve voltada para o topete loiro do ator Troy Dunahue, par perfeito da “mocinha” Suzanne Pleschete, nas belas paisagens da costa italiana e, acima de tudo, na música “Al-di lá”. Apenas uma única vez eu dei uma espiada no casal de noivos sentados ao meu lado, para não desmerecer minha função. Estavam ambos de mãos dadas, comportados...

E assim transcorria o filme... Já quase no fim, eis que se sucede o inusitado. Minha amiga se levantou de um supetão da cadeira, puxou meu braço e me ordenou que fosse embora com ela, i-me-di-a-ta-men-te! Levei o maior susto. Atônita, ainda quis ponderar, mas um alto e sonoro “shiiiu” veio irritado da cadeira de trás.

O noivo, parado, tentou assim permanecer, mas foi sendo empurrado pela noiva. Alcançamos a passarela, na seguinte ordem: minha amiga na frente, pisando duro com seus sapatos de saltinho, o noivo atrás, tentando segurar-lhe os ombros, e eu por último, caminhando entre apressada e ao mesmo tempo sem vontade de desviar meu olhar da tela do Rialto. Enfim... Saímos do cinema, eu sem saber de nada, apenas ouvia os dois à minha frente numa conversa em que a voz da amiga era de profunda irritação.

O noivo apenas se desculpava e tentava argumentar... Pegamos o caminho de volta pra nossa casa (morávamos os três na Vila Noroeste). Mas a surpresa não terminara.

Ao chegar em frente à Igreja Dom Bosco, minha amiga estancou em frente à escadaria e ordenou que o noivo se dirigisse para dentro e fosse até o altar de Nossa Senhora Auxiliadora. Eu tudo observava, ainda com as notas musicais da bela canção do filme no meu ouvido. Dois minutos depois, estava lá o moço ajoelhado aos pés da Virgem Maria, em contrita oração. O restante do caminho foi feito de silêncios, embora as mãos dos pombinhos já estavam novamente atadas. Depois de uns dois anos, aquele noivado foi desfeito, e cada um seguiu seu caminho. O tempo passou, mudamos daquela pequena vila e perdi o contato com ambos.

Mas, antes disso, minha amiga revelou-me o segredo do que havia acontecido naquela noite, assistindo ao filme lá no Cine Rialto: num arroubo apaixonado, o noivo tentou sapecar-lhe um beijo mais atrevido, desses molhados, demorados, de perder o fôlego. Ela, naturalmente tímida, ficou profundamente envergonhada e não viu outra saída senão fazer o noivo pecador ajoelhar-se aos pés do altar. Fico imaginando que até a santa riu-se daquela ingênua situação.

Afinal ela é tida como a Mãe Celestial e, diferentemente de muitas mães terrenas, deve entender melhor as espontaneidades do amor.

*Professora, escritora, poeta e diretora cultural da União Brasileira de Escritores em MS.

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