Segunda, 11 de Dezembro de 2017

opinião

Ruben Figueiró: "Um português na China"

Ex-senador da República

6 DEZ 2017Por 01h:00

Como quem se afasta célere de uma cobra cascavel pronta para o mortífero bote, estou no firme propósito de não mais comentar assunto do campo político, sobretudo, nacional. Sou, por convicções doutrinárias, do PSDB e não sou dos que fogem da raia,  mas me sinto incomodado com a tibieza do meu partido.

A hora é de coragem para o PSDB mostrar como vê o futuro e colaborar para uma sociedade melhor – como recentemente afirmou o seu presidente de honra, Fernando Henrique Cardoso.

Viro a página para o relato e episódios que ora me vêm à lembrança, ocorridos lá por junho do ano de 1988, portanto, mais de 29 anos pretéritos.

Estava eu numa delegação de parlamentares federais em visita à China, a convite do Politburo Central do Partido Comunista Chinês. Foram mais de quinze dias de intensa programação por várias regiões daquele continental país. Observei de viso uma nação milenar, de costumes e cultura sedimentados, mas que nela já se acentuava a revolução da modernidade, inclusive captando do Ocidente o modo de viver.

Lá tudo é fantástico para ver e sentir. Das solenidades oficiais em que é servido chá quente (sem açúcar), a cerveja quente (para o nosso gosto), a visita à Cidade Proibida na Praça Celestial, o centro nervoso do Poder Central, isso em Pequim.

A minha emoção mais tocante – e a relembro com emoção ainda hoje – ocorreu quando estive no trecho principal da Muralha da China, distante alguns quilômetros da capital. Marquei inclusive quando pisei no primeiro degrau de acesso à muralha, eram oito horas e quarenta minutos da manhã do dia doze de junho.

Pouco antes, deu-se um fato pitoresco como hilário; estava ainda no ônibus que conduzia nossa delegação e notei o caminho congestionado por centenas e centenas de pessoas, quase todas chinesas, quando observei alguém que me pareceu de nacionalidade portuguesa, pus a cabeça para fora do ônibus e gritei: “Óh home, qui tu estaire a fazeire aqui?”.

Ao que o cidadão de “estatura ideal” (a mesma minha), de compleição física de um lusitano, respondeu-me com acentuado sotaque: “A fazeire turismo, ora veja”. A identificação do português entre aquela multidão de chineses foi motivo de boas troças na delegação.

Outro episódio que me marcou forte sensação, de surpresa e revolta, presenciei quando da visita à monumental cidade de Xangai. É consabido que aquele multilegendário país foi derrotado e depois conquistado pelos ingleses, com apoio de outras nações europeias, quando da chamada Guerra do Ópio, no decorrer do século 19.

Foi para os chineses uma presença escorchante e cruel. Um dos testemunhos do desumano tratamento imposto pude presenciar quando da visita que a delegação fez a um antigo condomínio fechado, aristocrático, onde residiam exclusivamente estrangeiros, durante a invasão.

No seu portal de entrada, ainda está escrito numa placa (conservada pelos chineses como testemunho da barbárie): “Proibida a entrada de cachorro e de chinês”.

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