Campo Grande - MS, sexta, 17 de agosto de 2018

ARTIGO

Rolemberg Estevão de Souza: "Shakespeare, inspiração em momentos difíceis"

Diplomata

29 AGO 2017Por 02h:00

O Brasil passa por uma das fases mais delicadas de sua história política e econômica, que, entre dúvidas e incertezas, pode ser um momento de oportunidade, o que tem sido dito por muitos. Entretanto, poucos vislumbram que a superação das atuais dificuldades passa pelo diálogo com as grandes ideias e os grandes homens, fontes de inspiração de parcelas significativas da humanidade. Tal é o caso de William Shakespeare, o dramaturgo britânico, cuja peça “A Tempestade”, considerada por alguns seu melhor trabalho, serviu de inspiração para diversos intelectuais. 

“A Tempestade” é uma história de vingança, de amor e de conspirações oportunistas. Contrapõe a figura etérea de Ariel, incorpórea manifestação espiritual das altas aspirações humanas, à de Caliban, figura disforme, selvagem, permeada pelos instintos animais que habitam o homem. A ilha que serve de cenário para a peça é habitada por Próspero, duque de Milão e mago de amplos poderes, e sua filha, Miranda, que para lá foram levados após um ato de traição política, que destituiu Próspero do poder. Próspero tem como escravos Ariel, o espírito servil e assexuado que se metamorfoseia em ar, água ou fogo, e Caliban, representando os baixos instintos, identificado com a terra. O golpe de Estado foi articulado por Antônio, irmão de Próspero, com a ajuda de Alonso, rei de Nápoles. Próspero consegue fazer naufragar o navio que levava Antônio, Ferdinand, seu filho, Alonso e seus ajudantes para um casamento. Usa seus poderes mágicos para aproximar Ferdinand de Miranda, como forma de punir Antônio e se fortalecer.

Ações políticas contra Próspero, por parte de Caliban e de Antônio, são neutralizadas por Ariel e, no fim, Próspero perdoa a traição de Antônio. Ariel leva todos para Nápoles com segurança e é libertado por Próspero. Ferdinand e Miranda se casam. Caliban alcança a liberdade. 

O dramaturgo britânico esteve presente em minha juventude em Campo Grande, nas andanças pela Livraria Trouy, ao lado da antiga sede do Correio do Estado, como lembram alguns conterrâneos. Ali, na Rua 14 de Julho, em frente do bar do senhor Antônio Gaspar, cujos happy hour de fins de tarde eram alegres e descontraídos, conversava uma vez ou outra com o senhor Aguinaldo Trouy, cuja inteligência me surpreendia pela variedade de temas, abordados com profundidade. Shakespeare era presença frequente, inspirando meus projetos de vida e, provavelmente, minha opção pela carreira diplomática: “É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada”. Carrego este princípio comigo até os dias de hoje. 

Outro ensinamento de Shakespeare que me acompanha e me auxilia na ars diplomatica diz: “Não pode haver couraça mais potente, do que um coração limpo; está três vezes armado quem defende a causa justa; ao passo que está nu, ainda que de aço revestido, o indivíduo de consciência manchada por ciúmes e injustiças”. É com esse desprendimento que podemos abordar os desafios que se apresentam ao Brasil e a Mato Grosso do Sul. O espírito elevado de Ariel que ajudou Próspero a se recuperar em meio a interesses escusos e ambições desmedidas. 

Mato Grosso do Sul, com sua riqueza natural, vocação para a agricultura e a pecuária, povo cordato e trabalhador, pode continuar a trilhar as sendas do progresso e do bem-estar. A razão e o espírito generoso sugerem, igualmente, um olhar mais atento à vizinhança, pois o recente crescimento econômico do Paraguai e a relativa estabilidade política da Bolívia poderão, nos próximos anos, concorrer para maiores oportunidades de negócio em nossa fronteira, para o que o Ministério das Relações Exteriores em muito pode contribuir. Em momentos de crise, é importante mantermos a altivez e olharmos para além do horizonte imediato.

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