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Campo Grande - MS, quarta, 14 de novembro de 2018

ARTIGO

Rolemberg de Souza: "A eleição presidencial de 1994: opção pela estabilidade"

14 SET 2018Por 02h:00

A redemocratização do Brasil foi um processo complexo, que colocou a sociedade brasileira diante do desafio de modernizar suas instituições sem minar as bases da própria democracia nascente.

As dificuldades econômicas do País e as altas taxas de inflação dos anos oitenta exigiam de mães e pais de família um cuidado enorme com o salário ou renda eventual, resultando em idas regulares ao supermercado no dia do recebimento, pois no outro dia – ou na tarde do mesmo dia – os preços seriam majorados, diminuindo seu poder de compra. Nem mesmo os/as “fiscais do Sarney” foram suficientes para conter a escalada dos preços.

O descalabro econômico dos anos 80 ressaltou aos olhos dos eleitores o significado da derrota do movimento das Diretas Já, que reunira no mesmo palanque políticos como Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva, Mário Covas, Tancredo Neves e Ulisses Guimarães, entre outros.

Ou seja, a união do País em favor do conjunto da sociedade. Efeito distinto da vitória de Fernando Collor na polarização eleitoral de 1989, alavancada pelo temor de uma vitória do PT – então um partido de esquerda – e pelo jogo midiático da exposição da vida privada de seu candidato. Jogo de cena potencializado pela estreia da fake news no período democrático, supostamente contida na “pasta rosa”, e pela conhecida editoração do debate televisivo que praticamente definiu a vitória de Collor, ainda hoje utilizada em cursos de comunicação como exemplo de manipulação da mídia.

A década de 1990 não trouxe alento para eleitores e eleitoras, estarrecidos diante dos feitos do presidente que conduziria o Brasil ao “primeiro mundo”, mas que congelou a poupança dos cidadãos, levando muitos deles a uma situação financeira desesperadora.

Mas foi a autonomia de ação de Collor e seu distanciamento em relação a lideranças políticas tradicionais e do empresariado mais influente em Brasília – em meio a acusações de corrupção – que o levaram ao impeachment e à sucessão por seu vice-presidente, o anódino Itamar Franco. Dois anos de governo de transição, de política econômica pouco eficiente e da tentativa de ressuscitar a fabricação do Fusca.

Foi neste contexto que o PSDB elaborou sua mais importante obra de engenharia política, a de colocar Fernando Henrique Cardoso na pasta das Relações Exteriores, nomeado por Itamar Franco, em seguida na da Fazenda, e elaborar o Plano Real, considerado por alguns um caso de darwinismo eleitoral.

O cronograma da adoção de uma nova moeda, por meio de um período de transição monetária gradual, com a URV (unidade real de valor), até a implantação do real, em 1º de julho de 1994, explicita a eficácia do plano. À medida que a economia brasileira se estabilizava, FHC crescia na preferência do eleitorado, na mesma proporção em que Lula perdia votos.

Ao contrário do pensavam na época lideranças políticas do PT, inclusive economistas de algum renome, o Plano Real não era tão somente um estelionato eleitoral.

O Real assegurou a vitória de FHC no primeiro turno, em aliança do PSDB com o PFL, sinalizando que o eleitor médio do País fez a opção pela estabilidade econômica e pelos preceitos tradicionais do liberalismo. Lula e o PT ainda eram uma ameaça, situação que se repetiria em 1998, com a reeleição do presidente tucano. No pleito de 2002, uma nova conjuntura levaria a mudanças no comando do País, assunto do próximo artigo no Correio do Estado.

Enfim, nas eleições de 1994 venceu o candidato que havia demonstrado – por atos e não por palavras – ser capaz de debelar a escalada da inflação, de permitir a milhares de brasileiros trocar a dentadura e voltar a comer carne e de devolver às famílias a possibilidade de planejar a compra do automóvel ou da casa própria. O “príncipe da sociologia” demostrava ter igual talento para a arte da política.

 

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