Domingo, 17 de Dezembro de 2017

artigo

Rogério Fernandes Lemes: 'A ficção
e a distorção da realidade'

Vice-presidente da União Brasileira dos Escritores em Mato Grosso do Sul

6 DEZ 2017Por 02h:00

A ficção literária apresenta-se como instrumento na compreensão da realidade, na medida em que deforma suas limitações cotidianas. A produção ficcional não pode ser compreendida como uma mentira, mas como uma distorção da própria realidade ao trabalhar com fatos imaginários. Em outras palavras, a ficção consolida-se na prevalência de fatos imaginários que prevalecem sobre a observação.

Quando uma pessoa faz a opção por ler um romance, por exemplo, ela tem consciência de que interage, fundamentalmente, com fatos imaginários, e não fatos históricos. Essa percepção prévia, de que uma história é o resultado da imaginação de alguém sobre suas observações da realidade e suas limitações, torna-se irrelevante do ponto de vista do juízo de valor.

A pessoa não está preocupada se os fatos narrados pelo autor são verdadeiros ou não, mas, sim, na possibilidade de uma percepção diferente da realidade; em uma possível compreensão da própria condição humana; ou, simplesmente, identificar-se com aquilo que sente, ainda que não possa manifestar publicamente.

A ficção é o auxílio necessário para que um escritor não tenha limites. A realidade, sim, tem seus limites e, por vezes, frustrantes. A ficção é uma espécie de “imaginação sociológica” proposta por Wright Mills e que nada mais é do que um recurso que o sociólogo utiliza para pensar os fatos históricos e os fenômenos sociais e depois voltar à realidade. Para o escritor, a ficção é o recurso ideal na sua produção literária.

Nessa compreensão da ficção como um recurso de distorção da realidade limitada não há mentira. Não há que se falar em mentira quando uma obra é apresentada aos leitores como ficção, fruto da imaginação.

A proposta de um escritor em contar uma história não significa que ele falará sobre verdades universais, mas uma caricaturização da realidade, que, se bem compreendida, permite-nos pensar e dialogar sobre aspectos essenciais da condição humana.

Para Mario Vargas Llosa, nas ficções não há mentira alguma, porque a ficção não engana o leitor que sabe, previamente, que sua leitura é uma invenção literária que teve como ponto de partida um evento da realidade, mas que foi engenhosamente transformado mediante acréscimos, exageros ou supressões. Verdades e mentiras coabitam um mesmo universo.

Quando pensamos no conto “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe, por exemplo, temos ciência de que é uma história inventada, porém, que retrata comportamentos, sensações e percepções subjetivas do ser humano. Essas deformações da realidade constituem-se como uma das formas de compreensão melhor da realidade. Certos eventos somente serão possíveis por meio da ficção. Portanto, eis a riqueza e a grandeza da ficção literária como um instrumento para conhecer mais a vida ou mesmo entender melhor as relações humanas.

Diferentemente da História ou da Sociologia, a ficção não tem obrigação de dizer a verdade histórica, exceto a verdade literária, essa, sim, capaz de persuadir e encantar o leitor, levando-o a uma profunda reflexão de sua condição e de seu posicionamento no mundo.

A brevidade da vida, por si só, é um fator que limita o ser humano. Ainda que a realidade seja uma bolha que aprisiona as pessoas e seus sonhos, a ficção é mais que uma válvula de escape, é uma espécie quase divina de salvação.

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