Campo Grande - MS, quarta, 22 de agosto de 2018

ARTIGO

"Precisamos valorizar (e valorar) o capital natural de Mato Grosso do Sul"

Nicholas Kaminski é doutor em Engenharia Florestal, superintendente executivo da Fundação Neotrópica do Brasil

27 SET 2017Por 02h:00

Muitos produtores rurais sabem o quanto sua área de plantio renderá após a colheita ou quantas arrobas serão produzidas em determinados hectares. Mas o quanto vale a chuva que faz esta produção crescer ou a mata ciliar que protege o solo da erosão e carreamento de sedimentos para o rio? A natureza realiza alguns processos que garantem a qualidade ambiental e sustentam a economia sem cobrar nada por isso: a regulação do clima, a formação dos solos, o controle da erosão, a manutenção do ciclo das chuvas e a beleza das paisagens são alguns dos muitos exemplos de serviços ambientais que nenhuma indústria seria capaz de fabricar (e se puder, sem dúvidas, será oneroso economicamente).

A crescente perda dos bens e serviços associados à biodiversidade leva a uma urgente necessidade de reconhecer e valorar o capital natural de Mato Grosso do Sul. É imprescindível reconhecer que áreas naturais do Estado possuem tanto valor econômico quanto o plantio de grãos, a produção pecuária e a silvicultura. Ainda mais: deve se considerar que estas áreas de produção dependem diretamente dos ambientes naturais e de sua biodiversidade! Não podemos negar que a economia de MS depende de polinizadores, água e solos protegidos, etc... e que aos poucos esse capital natural ainda vem sendo perdido pela conversão de áreas naturais em lavoura ou pastagens exóticas.

Não podemos manter nosso conceito estagnado na primeira metade do século passado, achando que a vegetação nativa em pé é um empecilho para o desenvolvimento econômico. Já possuímos áreas abertas suficientes para uma produção recorde e novas tecnologias de produção que utilizam menos área já existem e devem cada vez mais ser estimuladas. Um discurso inegável, muito aplicado pelo governo e pelo agronegócio é o de que as áreas de plantio bem conduzidas ajudam no sequestro de carbono e proteção de solo. No entanto, é ainda mais evidente que áreas naturais provêm muito mais serviços ambientais que beneficiam não apenas o produtor rural, mas toda a população, se comparado com um plantio de monoculturas.

É urgente a necessidade de se colocar em prática mecanismos econômicos de conservação ambiental. Precificar as áreas de vegetação nativa, definir o quanto elas produzem de serviços ambientais e promover um mercado econômico para manter estas áreas bem conservadas é um dos caminhos a ser seguido. Atualmente, técnicas para se precificar estes serviços ambientais já foram desenvolvidas e levam em conta as peculiaridades de cada região, podendo ser facilmente adaptadas à realidade de Mato Grosso do Sul. Aliado a isto, uma política estadual de Pagamento por Serviços Ambientais seria um instrumento conciliador e uma forma de agregar a conservação e a produção econômica. Municípios como Campo Grande e Bodoquena já possuem regulamentações municipais para isso, abrindo grandes portas para o desenvolvimento sustentável.

Em contrapartida, o governo do Estado ainda não fez sua lição. Embora previstos na Política Estadual de Mudanças Climáticas desde 2014, estas demandas estão paradas e urgem serem colocadas em prática, valorizando o produtor rural que conserva a natureza e propicia melhor qualidade de vida para toda a população. É uma ótima chance para o estado ser pioneiro e demonstrar efetivamente boas práticas inovadoras de desenvolvimento.

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