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ARTIGO

Paulo Cabral: "Gota d'água"

Sociólogo e professor

20 NOV 19 - 02h:00

O protesto do último dia 15, Proclamação da República, no Terminal Morenão, quando trabalhadores, principalmente mulheres, indignados com o atraso dos ônibus, decidiram manifestar-se fechando a pista, exige reflexão para além do fato.
Aos vereadores, que não encontraram motivos para instaurar comissão parlamentar de inquérito sobre o transporte público da Capital, vai a sugestão para utilizarem o serviço. Submetam-se ao suplício cotidiano do cidadão comum e aí, quem sabe, descubram razões de sobra para se posicionarem diante da questão.

Ao Executivo, que emitiu nota atribuindo o atraso a alegada pane de um veículo, (motivo, aliás, não mencionado na declaração do consórcio responsável), cabe fazer a Agência Municipal de Transporte e Trânsito e a Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados cumprirem suas atribuições em defesa dos usuários e não como advogados do Consórcio Guaicurus.

Esse episódio permite evocar aquele tido como o marco pela luta dos direitos civis dos negros norte-americanos, na segunda metade do século XX. Foi quando, em 1955, no Alabama, Rosa Parks, uma trabalhadora negra, se negou a ceder o assento reservado para brancos que ocupava em um ônibus. Ela foi detida e levada para a prisão. A partir dessa transgressão, que chamou a atenção de todo o país, desencadeia-se o movimento liderado por Martin Luther King, que culminou com o fim da segregação racial nos Estados Unidos.

Tanto no passado, como agora, a situação acontece em torno do transporte público e tem a truculência policial mediando o acontecimento. As manifestações da Ordem dos Advogados do Brasil e da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul de repúdio à ação da Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande dão a medida do excesso praticado; a repressão, invocando o direito de ir e vir deixou de considerar o legítimo direito daqueles trabalhadores ao transporte.

O desrespeito sistemático do Consórcio Guaicurus, concessionário de um serviço de natureza pública, para com os usuários; o descaso histórico da Prefeitura Municipal, que deveria zelar pela qualidade do transporte de massa, usando da estrutura existente (Agetran e Agereg) para fazer cumprir as cláusulas contratuais da concessão; a omissão conveniente da Câmara Municipal que tem por atribuição, dentre outras, fiscalizar a atuação do Executivo e buscar o bem da coletividade; a indiferença protocolar do Ministério Público Estadual quanto ao direito constitucional ao transporte (art. 6º CF); tudo  concorre para o cidadão sentir-se desprotegido, desvalido, massacrado.

A cada manhã e a cada noite, o tempo das pessoas, que usam um serviço tão caro e sem qualidade, é tratado como lixo. Esse desprezo gera  um sentimento ruim que vai crescendo e ganha corpo; a repetição diária desse sofrimento desperta a consciência, provoca indignação, cria revolta, até que em um dia de feriado nacional vem a gota d’água e o copo cheio de mágoa, como diz a canção, transborda.

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