Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

OPINIÃO

Octávio Luiz Franco: "Para o cientista, o mundo é o mercado de trabalho"

Coordenador do S-Inova, professor de Pós-graduação em Biotecnologia da UCDB

15 AGO 2015Por 00h:00

Nas últimas duas décadas tenho me dedicado integralmente a ciência. Realmente acredito que um cientista verdadeiro respira, sente, come e vive ciência a maior parte do seu dia e mesmo quando está descansando ainda assim sublima ciência. Quando descobri que minha vida estaria intimamente conectada com a ciência e tecnologia, minha família imaginou que provavelmente morreria de fome ou teria apenas uma carreira fadada a obscuridade. Pertinente preocupação em um mundo regido por profissões emblemáticas como a medicina, o direito e muitas outras de inegável reconhecimento e importância.  

Por outro lado, os cientistas eram considerados caras estranhos de jaleco branco que tendiam a fazer experimentos esdrúxulos regados a explosões e a completa ausência de importância ao mundo real. Ledo engano dos leigos, que hoje vem crescer a amplitude e importância dos estudiosos por todos os cantos do planeta. Raça esta indiscutivelmente dedicada, hoje cada dia mais o cientista profissional se torna global. Na busca incessante pela tecnologia avançada em todas as partes do mundo, boas cabeças pensantes se apresentam a peso de ouro. Em todas as áreas de desenvolvimento, profissionais de excelência se tornaram peça-chave e indispensável para o sucesso de empresas, universidades e centros de pesquisa. 

Assim, aquele caricato cientista maluco mudou de nome e face, se tornando pesquisador profissional, analista de tecnologia ou líder de pesquisa. Embora no Brasil a nossa profissão ainda esteja restrita quase que majoritariamente a universidades e empresas estatais, algumas empresas privadas que desenvolvem tecnologia já têm buscado profissionais com maior qualificação e perfil de desenvolvimento tecnológico com salários e cargos mais atrativos. 

Em alguns países, onde a ciência realmente é vista como pino central de uma nação, esta situação é ainda mais pungente. Notoriamente existem lutas ferrenhas em universidades para se ter os melhores pesquisadores em suas linhas de frentes e não obstante se observam ofertas de melhores salários, maiores estruturas para a pesquisa e enormes financiamentos para o desenvolvimento tecnológico. Nos dias de hoje países do Oriente Médio oferecem salários realmente atrativos para pesquisadores brilhantes e produtivos. O mesmo acontece entre as empresas internacionais. Lá fora, de uma forma geral, os maiores cientistas se afiliam a empresas e universidades ao mesmo tempo, trazendo benefícios claros a si mesmo e a sociedade por inúmeros meios. 

Em alguns casos extremos, alguns pesquisadores elite coordenam laboratórios em dois pontos extremos do mundo como Estados Unidos e China. Infelizmente esta situação ainda não é vista com bons olhos em Terras Brasilis, uma vez que as amarras burocráticas e legais não permitem que um pesquisador de excelência possa desenvolver múltiplas funções em paralelo em instituições diferentes recebendo por isso. Esta situação permite que as reais mentes brilhantes sejam perdidas por nosso pais. 

O mercado tecnológico é aberto e veloz e os brasileiros têm as portas abertas em muitos países por todo o mundo. Na maioria, apresentamos qualidades desejáveis como adaptabilidade e dedicação além de sermos agradáveis de uma forma geral. Esbarramos as vezes, entretanto na falta de foco, no apego ferrenho a nossa cultura e na dificuldade do domínio da língua estrangeira. Talvez seja realmente hora de revermos nossos conceitos e aprendermos um pouco como nossos parceiros e competidores estrangeiros que fluem ciência e tecnologia como ninguém. A isonomia de condições e salários é algo no mínimo estranho para um país com pessoas tão diferentes. 

Soltar as amarras dos bons profissionais é extremamente desejável para o desenvolvimento de um pais sólido e respeitável. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.

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