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ARTIGO

Nylson Reis Boiteux: "A conquista de Caiena"

Coronel reformado do Exército

4 OUT 19 - 02h:00

As fronteiras do Brasil já ultrapassaram o Rio Oiapoque até Caiena, capital da Guiana Francesa, que ficou subordinada ao Rio de Janeiro, por meio da Capitania do Pará. Isso aconteceu no tempo de d. João VI, que ordenou ao governador do Pará, tenente-general José Narciso de Magalhães e Menezes, que organizasse uma expedição a fim de tomar a Guiana e sua capital Caiena, como represália aos franceses pela sua expulsão de Portugal, em razão das tropas de Napoleão Bonaparte. Essa ação militar externa luso-brasileira constituiu-se na primeira atividade militar fora dos limites do Brasil.

A tomada de Caiena, episódio pouco conhecido da história pátria, ocorreu em janeiro de 1809, há 210 anos. Caiena era um povoado pouco habitado e utilizada como presídio militar. Sua posição estratégica permitiria a França ampliar seus domínios na América do Sul. Defendê-la seria difícil, pois o apoio militar só poderia vir da França ou de colônias francesas afastadas. 

A expedição luso-brasileira-inglesa para invasão da Guiana foi organizada em três “forças de ataque”. A missão da 1ª era de apenas reivindicar os antigos limites portugueses na margem austral do Rio Oiapoque, deixando um “destacamento de ocupação”, com 470 homens, uma bateria de artilharia, um cirurgião e um capelão. Comandava a tropa o tenente-coronel Manuel Marques d’Elvas Portugal, saindo do Pará em 27 de outubro de 1808 na escuna General Magalhães, com os barcos Vigança e Leão e mais 3 canhoneiras. A 2ª força partiu em 21 de novembro de 1808, com 346 homens sob o comando do major Manoel José Xavier Palmerim, na esquadra formada pela corveta inglesa Confiança (Confidence) e dois brigues de guerra portuguesa: o Comando Militar foi, então, dividido, cabendo a chefia das forças terrestres ao tenente-coronel Manuel Marques d’Elvas Portugal, e das forças navais ao capitão de mar e guerra da Marinha Britânica, James Lucas Yeo. A 3ª saiu de Belém em 25 de janeiro de 1809, nas embarcações São João Batista e Ninfa, com 250 homens, que seriam a reserva (ou reforço) da força de ataque mista. Deu-se o ataque em 6 de janeiro de 1809, quando a pequena esquadra ancorou na foz do Rio Aproague, ao sul de Caiena. Trezentos homens desembarcaram, penetrando na selva, comandados pelo capitão Yeo. Artilheiros, utilizando botes no rio, transportaram uma peça de artilharia. Os franceses foram surpreendidos. A expedição mista venceu. Morreram o capitão comandante dos franceses e o dos fuzileiros da fragata inglesa, três soldados franceses e três ingleses e se fez 16 prisioneiros. Os defensores batidos evadiram-se para a selva. 

Nos dois dias seguintes ocuparam-se posições para conquistar a Fazenda de Colégio (uma fortaleza), sede do governador e general francês Victor Hugues, que recusou a rendição oferecida. Com a recusa, o capitão Yeo atacou e venceu, apoiado por uma peça de artilharia. Senhor da “casa grande”, o capitão Yeo mandou incendiá-la. Nas tropas atacantes, eram poucos os estrangeiros, somente alguns nascidos em Portugal.  Os soldados brasileiros, oriundos da Província do Pará, receberam um brilhante elogio do comandante português Manuel Marques: “Por haverem demonstrado bravura e grande valor combativo”. No dia 9 de janeiro de 1809, ocupou-se “Beau-Regard”, posição estratégica que cortava a ligação de Caiena com o litoral. Não existiam forças navais francesas para defender a Guiana e, mesmo que houvesse, seriam batidas pela dos ingleses, que eram mais poderosas. No dia 10, renovou-se a proposta de capitulação. Dia 11, o governador Victor Hugues aceitou e com o comandante Manuel Marques fixaram as bases de sua rendição, tendo o governador francês pedido o desarmamento e a devolução dos escravos. Fim da guerra. O governador, seu Estado-Maior e acompanhantes foram levados à França no navio de guerra Infante D. Pedro, comandado pelo capitão brasileiro Luiz da Cunha Moreira. 

Consequências. a) Geopolíticas. O evento foi um ato de larga visão política de d. João VI, evitando que os ingleses se apossassem da Guiana, pois, dificilmente restituiriam à França. b) Militares. O historiador inglês L. Clowes assim apreciou a expedição: “A conquista de Caiena foi um dos mais admiráveis exemplos de realização de uma grande empresa, levada a efeito com elementos inteiramente inadequados”. c) Administrativas. D. João VI escolheu, para governar a Guiana, João Severiano Maciel da Costa (Marquês de Queluz). A Guiana voltou a ser francesa em 21/11/1817, em consequência dos acordos do Congresso de Viena e da Missão Diplomática do Duque de Luxemburgo ao Rio de Janeiro, no ano anterior.

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