Campo Grande - MS, sábado, 18 de agosto de 2018

ARTIGO

"Novos métodos de ensino: algo efetivo ou apenas capricho das políticas públicas?"

Octavio Luiz Franco é coordenador do S-Inova Biotech e professor do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UCDB

16 AGO 2017Por 02h:00

Fato é que os tempos mudaram, tecnologicamente falando. Outro dia, por uma infelicidade do destino ou estupidez momentânea, mergulhei na piscina portando meu celular. Apenas descobri que o telefone estava em meu poder, quando ele, submergido, vibrou em meu bolso. Ao atender, descobri tristemente que a importante ligação nada mais era do que uma daquelas irritantes televendedoras de produtos fantásticos e que meu celular faleceria momentos depois, dando seus últimos suspiros, não sendo reanimado nem mesmo em um pote de arroz. Mas o maior problema viria depois. 

Após perceber horas mais tarde que estava sem celular, me senti completamente estressado e perdido por não ter mais acesso ao mundo virtual. Como um louco varrido, comprei um celular dois dias depois e percebi, olhando a mim mesmo, que tanto eu quanto nossa sociedade hoje vivem um momento peculiar de contatos intermitentes e completa vida virtual. Percebi que, como viciados, sentimos a necessidade completa de estarmos conectados o tempo todo, fazendo coisas que tecnicamente são completamente desnecessárias. 

Aos 40 anos, percebi que nesse quesito específico, não era diferente de algum adolescente com um celular na mão que fica conectado por horas a fio. Diz-se que eles são uma geração perdida e alienada ao mundo virtual. Mas seriam realmente eles diferentes de nós? A resposta é não. 

A prestigiada revista Nature, esta semana, publicou uma matéria mostrando que pessoas de todas as idades estão completamente imersas no mundo virtual. Indivíduos que nasceram nas décadas de 70 e 80 e que basicamente não tiveram sua juventude submersa pela onda digital utilizam tanto essas ferramentas como qualquer adolescente nascido no século 21. Em comparação direta, os vovôs digitais apresentam o mesmo número de amigos no Facebook ou seguidores no Instagran ou Twitter, com a diferença que esses indivíduos compram e gastam mais na internet. Mas esse fato nos leva a uma reflexão mais profunda, inclusive, nos métodos de ensino aos estudantes.  

Em um artigo publicado no mês passado na revista americana de ensino, conclui-se que, embora muitas escolas e universidades redobrem esforços para lidar com crianças e jovens adultos que são supostamente diferentes, isso aparentemente pode ser completamente desnecessário. Em suma, a aprendizagem colaborativa na sala de aula e o fornecimento de módulos de e-learning em cursos de graduação aumentam a cada dia e o aumento dos nativos digitais tem sido usado como motivo claro para mudanças de políticas públicas significativas em todo o mundo. Entretanto, a política educacional pode ser particularmente vulnerável a caprichos políticos, modas e pressupostos não verificados. 

Desde a troca de evolução para o criacionismo até a ideia de que múltiplos tipos de inteligência exigem múltiplas abordagens, as gerações de crianças têm sido educadas de acordo com dogmas, e não com evidências. As pesquisas mostram, por exemplo, que professores e especialistas em educação se inscrevem em inúmeros estilos de aprendizagem diferentes e opostos. Sob esses focos, as crianças podem ser categorizadas como sem compromissos ou adeptos, ativistas ou teóricos, globistas ou analistas, organizadores ou inovadores, ou aprendizes profundos ou de superfície. 

Mas essas categorizações devem seguir com a premissa de que devemos alterar o acesso e a oferta de tecnologia na sala de aula, simplesmente porque se acredita que a juventude está mais familiarizada com isso? Se seguíssemos a mesma lógica, deveríamos trocar o almoço das crianças por sorvete e batata frita, uma vez que, nos últimos vinte anos, as crianças tiveram maior contato com esses alimentos. 

É incontestável que as pessoas criadas nas últimas décadas tenham sido expostas a muita tecnologia digital. Entretanto, não há evidências de que exista uma nova geração de alunos jovens que somente capturam os processos de mudança que estão ocorrendo. Muitos membros da geração tecnológica com experiência digital usam a tecnologia da mesma maneira que muitos idosos absorvem passivamente informações. Nem tudo novo é sempre bom e devemos avaliar com qualidade o que realmente é importante para nosso alunato. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.

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