Campo Grande - MS, domingo, 19 de agosto de 2018

ARTIGO

Nataniél Dal Moro: "Indústria pastoril e outras modernidades em Campo Grande"

Pesquisador no NEHSC/PUC-SP

28 AGO 2017Por 02h:00

Base econômica de influentes grupos e ponto destacado de arrecadação estadual, a indústria pastoril acolheu novas mentalidades nos anos iniciais do século 20. Campo Grande assumiu posição de centro aglutinador desse movimento.

Nas décadas de 1910-1920, o comércio de gado magro registrou considerável expansão. Na obra “Erros da Federação”, publicada em 1934, Arlindo de Andrade descreve a pecuária como “a nossa maior riqueza”. Grande parcela das reses bovinas tinha como destino os frigoríficos localizados em municipalidades do interior paulista.

Campo Grande recebeu das urbes de São Paulo e das Minas Gerais muitos produtos, depois revendidos em casas comerciais, e até comercializados no interior da região sul de Mato Grosso, por vendedores ambulantes, os populares andantes ou mascates.

O ambiente urbano de Campo Grande passou a ser um local de trocas humanas e simbólicas mais intensas, parte delas facilitada pela regularização das viagens em estrada de ferro e pela presença de migrantes com culturas e hábitos diversos. Eram pessoas que tentavam a sorte e a vida no então “distante” sul do Estado de Mato Grosso.

A povoação de Campo Grande tornou-se ponto de referência de muitos deles: nacionais e estrangeiros, destacados economicamente, remediados e simples, com ou sem formação técnico-profissional, às vezes até influentes no campo político-partidário. Essas pessoas mudaram algumas dinâmicas na localidade e construíram inúmeras outras.

Profissionais alinhados ao ideal e aos chamamentos da cidade progressista – como agrimensores, construtores práticos, engenheiros militares, educadores, médicos, e até negociantes e comerciantes, muitos dos quais leitores de impressos, revistas e jornais vindos de outras paragens e sintonizados com um “Brasil moderno” que supostamente nascia – fomentaram no “nascente” vilarejo as diretrizes gerais do chamado urbanismo moderno de viés marcadamente progressista.

Sob o amparo desses contributos, avultar-se-ia outra Campo Grande, marcada pelo traçado viário, organizado tecnicamente de modo quadriculado. Surgiu e consolidou-se uma urbe com plano ortogonal. São os populares projetos tabuleiro de xadrez, ou arruamento com traçado azulejado. A modernidade passaria a ser olhada e quantificada.

O urbano – na sua versão “elevada” – passou a ser um elemento passível de apreciação. Passagens comuns e desalinhadas do tempo do povoado de tropeiros, ruelas tortuosas e caminhos sinuosos ou serpenteados, muitas vezes vistos como realidades a serem evitadas, receberam os ofícios disciplinadores de indivíduos que se julgavam racionalistas.

A estrutura “primitiva” do arraial de Santo Antônio de Campo Grande foi alterada. As marcas do vilarejo de tropeiros, com animais bravios disputando o mesmo espaço e ameaçando a integridade física dos cidadãos (uma vez que a Proclamação da República era uma realidade ainda recente nos idos 1889), foram limitadas.

Os ventos da modernidade tropical – então presentes na Capital Federal, localizada naquela época na cidade do Rio de Janeiro – foram relatados pelo escritor Valério de Almeida, o qual descreve o intendente municipal (hoje seria chamado prefeito) Arlindo de Andrade Gomes como Francisco Pereira Passos de Campo Grande, “pois com ele desapareceram velhos pardieiros e surgiram as obras mais notáveis em prol do saneamento da cidade e quiçá do seu urbanismo.”

O impacto desse estilo de modernidade foi e continua sendo exaltado por muitos grupos sociais que, no decorrer dos anos 1930 e, mais ainda, na década de 1940, adjetivaram a cidade de Campo Grande como uma urbe moderna, progressista, civilizada e desenvolvida, centro comercial e metrópole econômica dos Campos da Vacaria e da Serra de Maracaju.

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