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Campo Grande - MS, domingo, 21 de outubro de 2018

OPINIÃO

Marçal Rogério Rizzo: "Revólver
de espoleta trazido pelo Papai Noel"

Economista e professor da UFMS

11 AGO 2018Por 01h:00

Você presentearia seu filho com um revólver de brinquedo, ou melhor, com um revólver de espoleta? Seguramente, nos dias de hoje, não – e acharia uma aberração os pais que dessem aos pequenos um presente desses.

De fato, você tem razão! Basta olharmos para as estatísticas e dados sobre a violência cotidiana que nos assombramos. Isso nos faz ponderar todas as formas que possam abolir alguma ação violenta, mesmo que imaginária, inclusive a de nossos filhos brincarem de polícia e ladrão ou de mocinho e bandido usando uma arma de brinquedo. Também, pudera... Tanta gente sofrendo as ações da violência diariamente... Aqui vale ressaltar que revólveres de brinquedo podem ser usados para a prática de assaltos, pois podem assemelhar-se aos verdadeiros e intimidar pessoas.

Contudo, num passado não tão distante assim, confesso que brinquei muito com armas de brinquedo e revólver de espoleta. Voltando na máquina do tempo, lembro-me aqui dos anos de 1980, mais precisamente em uma tarde de sábado, num sítio no bairro rural do Ribeirão Lagoa, próximo a Jales/SP, já chegando o dia de Natal, ganhei um presente do Papai Noel. Chegou embrulhado em um papel vermelho da loja Livraria Marisa, que vendia brinquedos. Era um sonho de criança, daquela época, ganhar um revólver de espoleta, e os pais e avós não viam a necessidade de proibir essa brincadeira nem a compra do brinquedo tão sonhado. Foi assim que ganhei um “Colt de cano longo”, igualzinho ao dos filmes de bang-bang aos quais assistia.

Falando em filmes de bang-bang ou faroeste, esse presente vinha para abrilhantar o que eu via na televisão em preto e branco que tínhamos em casa. Televisão colorida era coisa de rico naquele tempo, quase ninguém tinha. Mesmo sem cores, a magia existia: eu transpunha a tela da televisão e passava a sentir-me um John Wayne ou um Clint Eastwood com o meu Colt em punho.

Em meio ao quintal de casa, imaginava-me frente a frente aos apaches ou aos bandidos sanguinários que vagamundeavam no Saloon daquelas cidadezinhas do Velho-Oeste. Corria de um lado para o outro atrás de galinhas, galos e até mesmo de bezerros, imaginando que fossem os bandidos e eu, o mocinho. Era uma brincadeira fantástica, sem agredir os animais, pois eles corriam de mim, e esse era o objetivo: os bandidos amedrontados fugindo do mocinho. Só parava para recarregar o revólver com espoletas novas e assim os estalos seguiam pelo quintal. Muitas vezes, enchia os bolsos de milho e jogava para as galinhas quando queria simular uma cavalaria, elas viam atrás de mim comendo o milho e correndo atrás. Na verdade, era a minha “galinharia”. Quando havia outras crianças na brincadeira, gostava de ser o xerife e comandar ações à frente das demais crianças, que se passavam por assaltantes da diligência ou do banco. Até uma estrela feita de papelão eu usava no peito; afinal, xerife tinha que ter sua credencial.

Ter uma arma de brinquedo naquela época era coisa comum. Existiam também as metralhadoras da Estrela, que estalavam e soltavam faíscas por meio de um carvãozinho que ficava esfregando numa pedrinha giratória. Essa já era boa para brincar durante a noite e normalmente a brincadeira decorria de histórias (há quem prefira dizer “estórias”...) de guerra criadas pela molecada.

Mas, voltando ao meu “Colt cano longo”, dentro de minha inocência de criança, nunca me imaginei usando uma arma de verdade, ainda mais para matar alguém no mundo real ou para praticar assaltos, roubos ou mesmo dar sustos em pessoas.

É, mas os tempos mudaram. Hoje, muitas crianças nunca chegaram perto de uma galinha e o melhor brinquedo delas é o YouTube ou os jogos eletrônicos. Correr atrás das galinhas e bezerros, mesmo sem a intenção de molestá-los, pode gerar algum mal-entendido com relação aos direitos dos animais. É curioso que, nestes novos tempos, tudo pode se tornar uma ameaça; até mesmo um revólver de espoleta trazido pelo Papai Noel. Infelizmente, já não se fazem brinquedos e brincadeiras como antigamente. 

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