Sábado, 26 de Maio de 2018

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Luiz Fernando Mirault Pinto: 'Quem
(ainda) tem medo do lobo mau?'

Físico e administrador

15 FEV 2018Por 02h:00

A história narrada nos deu conta de que os três porquinhos* ao saírem das barras da avó passaram a sofrer assédio de um lobo mau, que tinha a pretensão de devorá-los. Heitor e Cícero morriam de medo e haviam escapado do sopro que destruíra suas casas de palha e madeira respectivamente, indo abrigar-se na propriedade de alvenaria, resistente, de Prático, que sabia defender-se das investidas do lobo. 

A narrativa ainda faz alusão ao porquinho mais inteligente, Prático, trabalhador que se dedica a construir uma casa planejada e estruturada em terreno próprio, enquanto seus irmãos despreocupados apenas se divertiam contrariamente aos conceitos hoje endeusados de propriedade, da meritocracia e do “self made man”, desenhado pelo mercado e pela política capitalista neoliberalizante.

O conto considera como os demais – “Chapeuzinho Vermelho” e outros – que os lobos são espertos, maus, ardilosos, ferozes, se travestem para “dar o bote”, ou então se queimam ao entrar nas casas por vias indiretas, como a chaminé em pleno uso da lareira.

Esopo, La Fontaine, os Grimm e Joseph Jacobs* rechearam nossas cabeças de histórias intrigantes, curiosas, responsáveis pelo nosso desenvolvimento infantil, incutindo não só aventuras inocentes e imaginativas, mas traumas sérios que são fantasiados na cabeça de algumas pessoas, como crenças, mitos e medos reprimidos, representados pela imagem “malvada” do lobo.

Foram associadas diversas fábulas aos lobos maus como “Pedro e Lobo”, “O Lobo e o Cordeiro”, “O Leão e o Lobo”, “O Lobo e os Sete Cabritinhos”, “O Cão e o Lobo”, “O Pastor e o Lobo”, e ficções aterradoras do Lobisomem, ou a modernidade de herói (?), o Wolverine, todas tendo o objetivo de colocar o lobo para escanteio, a exceção deste último.

Todavia estudos nos mostram que os lobos são perseverantes, aguerridos na luta e simbolicamente reconhecidos como experientes líderes, como um “lobo do mar”, que sabe qual o rumo tomar evitando as tormentas.

Aqui, na “Banana Tropical”, os contos sobre a repulsa de lobos se exacerbaram em meados de 89, quando, após o êxito das ações ao derrubar a intransigência das indústrias automobilísticas em promover negociações e acordos trabalhistas aos seus colaboradores, um deles conseguiu contra o preconceito social nacional velado transformar o medo em esperança, competindo diversas vezes contra o poder econômico, os interesses capitalistas, o cabresto do coronelismo, os donatários de capitanias, as elites entronizadas, a mídia cooptada, e impedindo a continuidade da “mesmice”.

O medo, no entanto, sempre permaneceu porque ele é fruto das incertezas e sempre vence, e exatamente por isso que o poder financeiro dele se utiliza para controlar e manobrar as massas pela mídia vendida, assim como levá-las a aceitar inconsciente ou coercitivamente situações indesejáveis, desde que lhes pareçam de livre escolha.

Diariamente notícias visam escorchar, aviltar e difamar a imagem do lobo, enquanto justiceiros ladram.
A história real diz que Heitor e Cícero galgaram um patamar social. Adquiriram uma moradia própria graças às políticas sociais implantadas pelo lobo mau.

Prático, com uma casa melhor, ferrenho defensor do direito de propriedade, sentiu-se ameaçado e receou perdê-la, justo porque sua classe social economicamente aquinhoada e de suposta formação cidadã ainda pinta a imagem do lobo preconceituosamente como vilão, apesar de ele ter tratado os desiguais desigualmente na medida de suas necessidades, reduzindo os índices socioeconômicos negativos e, portanto, aplaudido no planeta como “o cara”, motivo suficiente para ser desprezado por aqueles que o invejam intolerantemente e cismam em desdenhar as qualidades “lupinas”.

A história moderna ainda contará que o Lobo se livrará das perseguições imputadas e mostrará mais uma vez às velhas raposas do “pedaço” que suas intrigas, suas mentiras, seus ardis, suas convicções e acusações fazem parte de outros contos, os do passado ressentido.

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