Campo Grande - MS, quinta, 16 de agosto de 2018

Artigo

Luiz Fernando Mirault Pinto:
Projetos mirabolantes

Luiz Fernando Mirault Pinto é físico e administrador

16 OUT 2017Por 01h:00

Conheci Campo Grande no seu 73º aniversário. Muito e pouco a cidade mudou! A mudança trouxe muitos prédios, inúmeros carros e muito comercio miúdo.  As árvores (ipês, flamboyant, primaveras, e sibipirunas), as vias largas, a temperatura amena, o céu de brigadeiro, o ar puro ainda garantem um cenário provinciano.

Naquela época, feriados deixavam a cidade vazia, que se deslocava para o interior, levando consigo os moradores. Cruzava-se a cidade sem transito, em pouco tempo as distancias entre o almoço e o trabalho eram vencidas. Ouvia-se a polca paraguaia e guaranha entre o corte da carne no espeto. 

Com Celso Costa, arquiteto amigo, discutíamos a cidade com outros olhos, diferente daqueles dos administradores e resolvíamos numa conversa todos os problemas de então e do futuro da cidade, idealizando projetos mirabolantes num exercício espacial, fora das nossas atividades rotineiras de trabalho.

O entretenimento se daria com uma praia artificial no baixadão da Av. Salgado Filho, após a limpeza e despoluição dos córregos, a construção de piscinas para redução da vazão e a criação de peixes, com o represamento das águas formando um grande lago ao final margeado por areia e quiosques a serem explorados pelo município, como hoje se faz em Paris Plage (França), em Mangualde e Alqueva (Portugal).

Um mergulhão entre a Treze e a Calógeras aproveitando o desnível das pistas evitaria os engarrafamentos no centro, que por sua vez teria seu comercio revitalizado, com um grande shopping a céu aberto, aproveitando a profundidade dos terrenos nas quadras, criando lojas com duas frentes por meio da desapropriação de uma área de entrada e circulação interna, promovendo a integração e a recuperação imobiliária da região.

As cidades se projetavam naturalmente para oeste, em direção ao por do sol, embora aqui o desenvolvimento se desse na direção leste, pois as áreas militares dificultavam a expansão. Projetávamos estrategicamente para essa região a forma de abastecimento de alimentos com a criação de um anel verde de agricultura familiar, pois a totalidade dos alimentos era procedente de outros estados, e ainda hoje apenas 15% são originários daqui. 

Muitos resíduos da construção civil em plena expansão eram desperdiçados, ou inadequadamente descartados e não reaproveitados, mas que tal quadro poderia ser revertido com a criação de uma cooperativa municipal de material de construção reutilizável para o uso na manutenção em parques e jardins ou mesmo em programas sociais de habitação. 

Após quase meio século, quando fazíamos um exercício mental de solucionar problemas imaginários, vemos que pouca coisa mudou exceção feita ao número de shoppings e a quantidade de grandes supermercados que a cidade excessivamente e estranhamente comporta, altos edifícios que exploram inadequadamente o uso do solo, inúmeras farmácias, lava-jatos, e clinicas de estética. Os córregos viraram escoadores fluviais e de resíduos urbanos

Campo Grande, grande em extensão, com transporte viário deficiente, carece desde então, de parques infantis de recreação ao ar livre; caberia a novos visionários outra destinação a estrutura emperrada do Aquário, criando um parque infantil temático, jogos virtuais, equipamentos esportivos, museus informatizados, praça de alimentação, ou qualquer atividade que levasse a população a participar da cidadania da futura geração. 

Afinal manter peixes para atrair turistas ou subvencionar pesquisas são apenas elucubrações e justificativas caras, pois existem locais apropriados no estado que os aguardam com espécimes em habitat natural e sem custo de manutenção. 

Idealizar tais projetos imaginários como treino mental assegurou nossa memória, nos permitindo planejar e solucionar problemas alheios, facilitando a percepção de imagens e a fazer relações espaciais, manter a orientação e a noção de tempo, e mesmo não tendo trazido benefícios diretos e concretos ao município, não acarretaram gastos e mais o importante é que tais práticas nos evidenciaram a ausência dos sinais de Alzheimer precoce.

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