terça, 14 de agosto de 2018

OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault Pinto:
"Fogueteiro das trifugas"

Físico e Administrador

2 SET 2017Por 01h:00

Em um dia aleatório, num horário indeterminado, em local qualquer, fora dos meses de festejos folclóricos, tradicionais, de folguedos esportivos, religiosos ou carnavalescos, sempre haverá um insano que desafiará a natureza, o silêncio ou a paz reinante com rojões, estampidos, e demonstrações efusivas da imbecilidade humana que atribuo a um “fogueteiro das trifugas”.

São diversos os significados do termo fogueteiro constante no “pai dos burros”: desde contador de vantagens, mentiroso, loroteiro, que gosta de aparecer, tal qual um “papagaio de pirata” até ao fabricante e soltador de fogos e “en passant” pelo que há de mais atual, os “olheiros” vigilantes que anunciam a chegada das drogas ou a presença da polícia por meio dos rojões na zona controlada pelo trafico.

Os autênticos pirotécnicos, fogueteiros folclóricos, seriam aqueles que fabricam ou se utilizam dos fogos artifícios em arraiais, locais destinados a festividades religiosas juninas ou festa dos santos populares, tradicionais e originárias de Portugal, estabelecidas na região Nordeste do Brasil, em homenagem Santo Antônio, São João e São Pedro, ou mesmo na comemoração da passagem do ano com a queima de fogos de artifício.

Não sei a quem atribuir a afirmação de que os santos gostam de fogos, de ruídos ou de extravagancias, a menos que faça parte da cabeça de algum carola “fogueteiro”, que precisa aparecer, fazer presença, ou externar que sua fé é maior que a dos outros. Para mim, quem adora foguetório, de fogos, fogueira, brasa, barulho, acidentes fortuitos e do inferno, é o “cramunhão”. 

É certo que as pessoas que gostam de aparecer ditas espóticas ou com transtornos de personalidade histriônica, estão sempre procurando a aprovação de terceiros. A história nos conta sobre a origem dos fogos em eventos, festividades, comemorações, mas pouco se sabe sobre essa prática social, e desde a antiguidade os senhores sempre precisaram mostrar o poder, a riqueza, a liderança sobre a comunidade, gastando fortunas em exibições pirotécnicas. 

Na idade média, os senhores feudais competiam com a Igreja também detentora de terras doadas em troca da proteção divina, e por isso tinha o domínio político, econômico e cultural, e ambas as classes se respeitavam demonstrando o poder e se permitindo proteção. A pólvora antes usada nas guerras passava a ser empregada em festas feudais, em homenagem e louvor aos santos protetores da colheita dos aldeões. No Brasil colonial os senhores de engenho iluminavam os arraiais dividindo a alegria com os escravos pela safra afastando os maus espíritos como faziam os chineses antes da descoberta da pólvora, ao provocarem estalos ruidosos produzidos pela queima de bambu verde.

Disso se estrai que a ignorância quanto às superstições foram folcloricamente mantidas, assim como estendidas a outras manifestações culturais, mas sempre mantendo as demonstrações de poder, de riqueza, de posição social e distinção de classe, por meio do desperdício e do consumo improprio, poluindo o ambiente, colocando em risco as pessoas, e provocando efeitos adversos em animais.

Animais de forma geral são sensíveis a ruídos extraordinários que acionam o sistema nervoso, tornando-os ansiosos, com medo, e inseguros e nos cães que vivem o mundo através de seus sentidos – narinas, olhos, ouvidos, nada mais perturbador que estrondos, luzes e fumaças. Não é a toa que na época da soltura de fogos, animais domésticos adoecem, fogem e até mesmo atacam tamanha a carga estressante adquirida.

As leis não são suficientes para coibir os abusos ou agir sobre os recalcitrantes que se arvoram no direito de ferir a tranquilidade alheia a menos que uma praga politicamente incorreta seja rogada de modo a fazê-los ver de como eles são intolerantes naquele exato momento em que se mostram superiores a vizinhança.

Bom, “as trifugas...”, uma figura do pensamento, um neologismo, cujo significado traduziria as profundezas, as trevas ou mesmo “as tripas do chifrudo”, justo daquele que se acha empoderado ao atentar contra a paz alheia; ao soltarem fogos próximos a sua casa independente da motivação justificável ou inconveniência de horário, lembre-se que certamente “o tinhoso” é que estará comandando o espetáculo pirotécnico, mostrando suas entranhas ou denunciando seu esconderijo, quiçá desafiando todos os santos.

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