terça, 14 de agosto de 2018

OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault Pinto: "Banalizando"

Físico e administrador

16 MAI 2018Por 01h:00

A banalização é a ação de transformar um assunto importante, um tema ou evento de destaque em uma trivialidade, ou a desvalorização a ponto de se tornar um tratamento desrespeitoso, destacando pontos negativos ou descontruindo uma imagem por meio da repetição de notícias (por vezes falsas) no sentido do esgotamento ou, pelo contrário, a não divulgação delas, tornando qualquer fato menor sem importância.  
O cenário atual é representativo dessas circunstâncias de desvalorização, desrespeito, descaso, desregulamentação, desânimo, características do que se define com pós-modernismo quando no mundo atual existe uma clara tendência em banalizar os tópicos que no passado eram considerados importantes e que impunham respeito maior. 

Sendo assim, devem-se considerar as características da época, onde a necessidade de ser notado e obtenção de ganho fácil faz com que assuntos importantes se tornem banais e só o futuro nos reserva a evolução desta tendência, por enquanto de anomia, com apelos a anarquia. 

A mídia é useira dessa prática na qual determinados assuntos são apresentados inescrupulosamente sobre situações consideradas delicadas: para atender à audiência dos anunciantes e supostamente ao anseio popular, ultrapassando limites éticos ao divulgar a violência repetida e a excessivamente e criando a cultura do medo.  

A chamada pós-modernidade se caracteriza por uma sociedade que se torna refém das mídias eletrônicas, submetida ao controle do mercado econômico, envolvida com o consumo exagerado, sem especificidades ou gosto por escolhas, sem definição política ou ideologia e desinteresse pelas políticas públicas (sociais) além dos seus umbigos, afeita a polarização social, tudo se tornando individualizado, efêmero, passando a conviver com o caos, a relativização e o imediatismo.

O descrédito das instituições é um fenômeno mundial que alguns atribuem às mudanças promovidas pelo tipo de comunicação (web, redes) e a velocidade com que as informações são processadas e reproduzidas, deslocando as opiniões antes emitidas por profissionais, agora por indivíduos anônimos, cujas demandas não são atendidas prontamente, o que torna as expectativas banalizadas. Aliado a isso, a reprodução de notícias falsas permeia a rede com o objetivo velado de transformar o sério em jocoso, o importante em trivial, a fraternidade em aversão, e por que não amor próprio em indiferença.

A falta de compromisso e de lealdade incentivada leva a banalização às relações intersociais na utilização das redes onde a ação dos sentidos e a proximidade (tête-à-tête/olho no olho) são substituídas apenas por palavras ou “emoticons”. Da mesma maneira, o imediatismo e o individualismo banalizam a cidadania, que é uma conquista construída ao longo do tempo.

O patriotismo está desgastado, é coisa do passado, daí a banalização dos símbolos nacionais que não mais sensibilizam pessoas; grupos se apropriam do verde-amarelo para reforçar posições, opiniões, ideologias nem sempre declaradas ou verdadeiras, acompanhadas do hino ou o uso da bandeira inadequadamente.
A mentira assume a conotação da verdade quando repetida sistematicamente ao se apropriar  de fatos superficiais ou mesmo reais, mas com sentido contraditório. O “achismo” passa a fazer parte das opiniões ditas abalizadas sobre fatos não comprovados, banalizando a veracidade das informações.

A banalização se sucede a partir na repetição aleatória de ideias ou proposições verdadeiras sobre “a igualdade de todos perante a lei”; “a liberdade de expressão”; “as obrigações do estado e os diretos do cidadão”; “direitos e obrigações iguais de homens e mulheres” que se apresentam para a sociedade como utopia. Existem cidadãos em castas, uns com privilégios e outros em desvantagem; a crença que todos podem fazer declarações sobre o que pensam em qualquer lugar, a qualquer tempo sobre qualquer assunto; direitos não observados e diferentemente aplicados entre os gêneros.

E assim banaliza-se a política em função do despreparo dos representantes e das escolhas inadequadas; a educação, com o desrespeito aos docentes; a saúde, ao se considerar a incapacidade do atendimento universal; no trânsito, onde alguns se julgam acima das regras; ao sistema prisional, ao se considerar que direitos dos condenados são privilégios, da cultura pela inversão dos valores sociais. Em resumo, vivemos uma banalização!

 

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