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Campo Grande - MS, sábado, 17 de novembro de 2018

cenas

Leia a crônica de Sylvia Cesco:
'A Sociedade dos Perversos Vivos'

15 FEV 2018Por 07h:30

Na década de  noventa, fui assistir ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, aquela produção norte-americana, ganhadora do Oscar de Melhor Roteiro Original, que nos encantou com a  história de um professor nada convencional, despertando a simpatia dos alunos pela sua cativante compreensão e acolhimento de uma sociedade em transformação.

É um filme denso, com situações que nos remetem a inúmeras reflexões. E como disse Sócrates, momentos antes de beber  a cicuta que lhe foi imposta: “uma vida sem reflexões não vale a pena ser vivida”.

Saí do cinema do Shopping, recém- inaugurado, pensando sobre o quanto a insensibilidade humana pode levar a trágicas consequências.

O tempo passou. Mudaram-se os costumes e os valores vivenciados pela sociedade dos anos 50, sobre a qual trata o filme. De certa forma, todos buscaram encontrar e viver, à sua moda, o Carpe Diem, expressão-referência no filme dirigido por Peter Weir, pinçada de um poema de Horácio, cuja tradução original seria “Colha seu dia” (com responsabilidade), mas acabou se transformando, frente à visível decadência do Império Romano, em “Aproveita o dia presente” ou: “Sempre faça aquilo que você acredita ser o melhor para você”... 

Isto foi sendo adaptado em conformidade com os princípios éticos de cada um... Infelizmente é infinito o número de pessoas que fazem o que é bom apenas para elas, esquecendo-se de que  poderão estar  fazendo o pior para os outros.  Esse “esquecimento proposital” é movido, dentre outros motivos, por vaidade, comodismo ou  ganância.

Ah... a ganância...essa parece estar esculpida no Carpe Diem daqueles que extrapolam as perigosas fronteiras da ambição, mantendo acesa uma permanente fogueira de perversidade. Para eles, nada é suficiente. Querem tudo. Precisam sempre acumular mais e mais. Vão vivendo seus dias com suas almas adoecidas, pois  como disse o filósofo Cícero, em séculos que lá se vão: “A ganância é a enfermidade da alma”. E como existem empresários (?) doentes nessa Morena! 

Dias atrás fui em busca de mais xícaras de chá para receber amigas para um  já habitual palmo e meio de proseio, porque sou ainda daquelas que acreditam que a melhor rede social é “uma mesa rodeada de amigas”. Entrei numa grande loja que vende louças no atacado e varejo, lá na Calógeras.

Fui atraída por uma banca anunciando: “Promoção”. Estarrecida, me vi diante de várias xícaras quebradas e travessas rachadas, “lindamente” embrulhadas em papel celofane; estavam sendo vendidas pela metade do preço. Como assim??? Objetos que sequer poderiam ser doados por representar um real perigo  sendo oferecidos “magnanimamente” em promoção? Mandei chamar a gerente e expliquei-lhe que aquilo significava uma perversidade contra o incauto consumidor.  

Na semana seguinte, um outro exemplo de ganância desenfreada chamou-me igualmente a atenção e, coincidentemente, também a do nosso conhecido fotógrafo Higa, que tem palmilhado os chãos desta cidade eternizando nossa gente e seus costumes em suas mágicas lentes.

Pois escutem só: uma loja, dessas que vendem “montes de coisas” lá pras bandas do centro da Rua 14 de Julho, vem expondo um grande cesto onde se lê: “Vende-se (sic) bolas murchas”. Isto mesmo: a loja vende, com algum desconto, bolas já rasgadas, todas murchas, murchinhas!!! A gente ri ou chora??? 
A resposta por certo está no entendimento que cada um tem do seu Carpe Diem.

Se para muitos é colher e acolher os dias com ética e solidariedade, para outros, no entanto, é vender bolas murchas e louças quebradas sob atrativas e perversas placas de Promoção. Não sou da área jurídica. Mas encerro com um “Audi alteram partem”.

*Professora, escritora e poeta. Diretora Cultural da UBE/MS (sylviacesco@hotmail.com)

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