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Campo Grande - MS, quarta, 21 de novembro de 2018

CRÔNICA

Leia crônica de Theresa Hilcar: "Vestida para ser amada"

30 MAI 2017Por 08h:24

Dentro do táxi, a caminho de uma festa – na verdade um evento de meditação para comemorar aniversário – dou mais uma olhada na roupa. E começam as dúvidas sobre o traje correto, que a bem da verdade manda ser informal.

Mas a mente não conhece esta palavra e nunca se aquieta. E começa a tagarelar: será que você deveria ter colocado outra blusa? Ou trocado a calça por uma saia longa? E o cabelo, será que está bem? De repente, depois de um solavanco, na certa passando por um dos milhares de buracos da cidade, a vida me chama à reflexão. Quando foi que eu me vesti para mim mesma, sem me preocupar com os outros? Nunca, é a minha resposta. Nunca.

Já ouvi muitas vezes a frase que diz: “a mulher sempre se veste para outra mulher, ou seja, para se sentir parte de um grupo. Mas acredito que esta premissa, ainda que tenha sentido, pode ir mais longe”.

Nos vestimos para pedir ao mundo que nos aprove. Afinal, desde criança nossas mães nos enfeitam. Quantas vezes não chorei por conta do vestido que “pinicava”, mas que todos insistiam “era perfeito para a ocasião”. E as saias rodadas de organdi, flores, rendas, laços, sem contar o penteado que deveria ser impecável?

Me lembro como se fosse hoje, minha mãe esticando meu cabelo ao máximo para fazer um rabo de cavalo perfeito. Em ocasiões festivas, mesmo da escola, era obrigada a passar pela tortura da cabeleireira, que enrolava meus longos cabelos em bobes - que na época se chamavam rolinhos – e colocava minha cabeça debaixo de um secador com temperatura insuportável.

E depois vinham os grampos, dezenas, o laquê, e finalmente depois de horas de tortura, lá estava eu, com um coque no alto da cabeça, me achando o máximo porque, afinal, era o certo a fazer.

Criança não discutia. Vestia o que a mãe mandava e ponto. Obedecer às normas e ao figurino fazia parte do modo de vida que aceitava todos os códigos impostos pela sociedade.

Se a moda era vestir veludo, não importava o calor de 40 graus que fazia lá fora. Fui criada assim e acho que boa parte da minha geração foi também. Não importava o conforto, mas a aparência perfeita.

Os elogios das pessoas, os comentários dos vizinhos, da família, da sociedade. A infância, adolescência e a vida adulta continuaram iguais neste quesito. Mesmo podendo fazer as minhas escolhas, eu obedecia às normas da sociedade e seguia o figurino à risca. Nunca me rebelei. Aderi, de bom grado, ao método que garantia minha permanência no rol dos aceitos.

Olho novamente para minha roupa e reflito mais uma vez: as coisas repetidas viram hábitos que não conseguimos abandonar. E me espanto ao perceber que passei a vida inteira me vestindo para agradar os outros.

São quase 60 anos pedindo: me olhem, me amem. Que desperdício de tempo e energia. Nas festas, a preocupação com a aparência era maior, muito maior, que o desejo de se divertir. Tinha que ser a mais bonita da festa, foi assim que aprendi. Recentemente, ao participar de mais uma formatura do meu filho mais novo, para variar, passei a cerimônia questionando minha aparência.

Será que estava tudo perfeito? As pessoas iriam me olhar e comentar: como a mãe dele está elegante? Mas, claro, ninguém percebeu o meu esforço. Ninguém estava prestando atenção numa senhora que caprichou na maquiagem e se vestia com razoável elegância.

Meu guru costuma dizer que trazemos uma criança ferida dentro de nós, Aquela que algum dia foi rejeitada, magoada, ou que simplesmente não recebeu a atenção devida. E, que ao longo da nossa vida gastamos imensa energia no intuito de corrigir esta falta.

Queremos ser vistos, admirados, amados. Então vestimos nossas máscaras, capas, armaduras e vamos para a luta, tentando forjar um afeto que acreditamos merecedores. E nos contentamos com tão pouco.

Enquanto isto, a indústria da moda e da beleza agradece penhoradamente nossos esforços. Mas o universo não está nem aí.

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