Sábado, 26 de Maio de 2018

crônica

Leia crônica de Maria Adélia
Menegazzo: 'Cada um no seu quadrado'

13 FEV 2018Por 07h:30

Era domingo de manhã e eu estava em um supermercado com minha prima Mariza, comprando coisas que faltavam para o almoço em família. A música invadiu aquele espaço imenso – Eight days a week.

Beatles. Letra bobinha, infantil mesmo, mas, quando fiz uma panorâmica das pessoas que estavam lá, percebi que muitos cantavam, ou pelo menos tentavam, e o que foi mais bacana, todos os que cantavam, sorriam.

Comentei com minha prima e chegamos à conclusão de que, independente da idade, fazemos parte de uma geração que, felizmente, teve coisas muito boas para escolher, seja na música, na literatura, no cinema e, até mesmo, nas profissões.

O mundo ainda dava conta do mundo e “tempo real” era só uma expressão. Como bem traduziu Rita Lee, uma beatlemaníaca, “há pessoas que a gente não esquece nem se esquecer”.

Os Beatles são assim como amigos e amores. Não precisamos nos dar ao trabalho de esquecer. A memória, essa pele que recobre o tempo, se encarrega de nos levar daqui, dali, pra qualquer lugar. Não dá para impedir esse trânsito involuntário e poderoso e o mundo dá todas as voltas!

Dias depois, fui assistir ao filme The Square, do diretor sueco Rube Östlund e confesso que saí do cinema desconcertada. Uma ilustração possível da teoria do caos, onde uma coisa leva à outra.

O personagem principal é diretor de um Museu de Arte Contemporânea e tem como projeto mostrar a obra de uma artista argentina, que se resume a um quadrado pintado no meio da praça em frente ao museu. Dentro desse quadrado há uma frase que diz mais ou menos isto: O quadrado é um espaço onde compartilhamos direitos e responsabilidades, um santuário. Lembrou-me as obras de Jenny Holzer.

Uma obra que não seria aceitável em qualquer outro espaço, inclusive pelo preço. Daí que o diretor contrata uma agência de publicidade para fazer a divulgação, que fica ao cargo de dois garotos que se acham geniais. Seria cômico, não fossem as consequências trágicas da campanha desenvolvida por eles nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, o diretor, um típico homem sueco contemporâneo, é assaltado e faz de tudo para reaver seu relógio. A partir daí, o filme se transforma em uma avalanche de temas que vão do valor da obra de arte contemporânea aos limites do que hoje chamamos de politicamente correto.

Os contrastes de uma sociedade capitalista tida como exemplar, seus conflitos, diferenças e indiferenças são mostrados em cenas extremamente tensas, entre o terror e a piedade.

Juntando as pontas, Beatles, memória, quadrado, e um pouco de Carnaval, me vem a possibilidade de nada disso existir daqui a algum tempo. Muito se indaga sobre como viveríamos sem memória, sem arte, sem saudade. Não quero saber a resposta. Ainda prefiro esse mundo imperfeito, de seres imperfeitos. Ziriguidum!

 

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