Campo Grande - MS, terça, 21 de agosto de 2018

CENAS

Leia a crônica de Sylvia Cesco: Galeria"

9 AGO 2018Por 15h:16

As paredes azuis da minha sala estão cobertas pelas obras dos artistas plásticos Ilton, Lelo, Pedro Guilherme, Furlan, Jonir, Jorapimo, Cássio Shimizu, Júlio Cézar, Lúcia Barbosa, Bravo, Searon, LuCaSa (Luis Carlos Santos) e Fukuda, que se misturam com as de outros pintores desconhecidos, num desfile de luz e cor, traços, formas, proporcionalidade e perspectivas dos espaços criados pelos pincéis, tintas e emocionados sentimentos que escorrem das suas mãos, verdadeiros instrumentos de provocação dos nossos sentidos, da nossa memória...

Em tardezinhas de nada/tudo para se fazer, me esparramo sobre umas almofadas e fico viajando para os mágicos lugares que me levam aos universos simbólicos dessas telas. Não sou uma crítica de arte. E nem sei se gostaria de sê-lo. Aliás, essa coisa de ser crítico disso, crítico daquilo sempre me deixou meio cabreira...

Embora reconhecendo o inestimável valor daqueles que nos ofertam dimensões que nem sempre nossos olhos de simples mortais conseguem captar, às vezes, sinto como se as  críticas  tirassem o maravilhoso e necessário mistério que existe nos quadros.

Há um bom tempo, li numa revista de Sociologia uma frase de Denis Diderot, escritor e filósofo francês do século 8, dita ao pintor francês, seu conhecido, François Boucher: “Por favor, deixe alguma coisa a ser completada pela minha imaginação”. Acho essa frase genial. Serve não apenas para os quadros pintados, mas também para os livros escritos, os filmes produzidos, as comidas que alimentam ou para as pessoas que nos são apresentadas. Serve para tudo. “Por favor, deixe alguma coisa a ser completada pela minha imaginação”.

Porque não quero mais sentir o sentimento do outro; o gosto que o outro sente; não quero enxergar pelo olhar do outro; ouvir pelos ouvidos do outro. Lembro-me de que costumava fazer umas perguntas a mim mesma enquanto regava a pequena horta no fundo de nossa casa, plantada com esmero pelo avô português: – O sabor do tamarindo na minha boca seria o mesmo sentido por outras bocas? A música que entrava pelos meus ouvidos era a mesma entrava pelos ouvidos de outras pessoas? O perfume sutil da violeta, flor predileta da nossa mãe, seria o mesmo para todos? A linda cor lilás seria a mesma que o outro enxergava? Minha infância passou, minha adolescência passou feito as diferentes fases vivenciadas também pelos artistas plásticos antes de atingir a maturidade quando, então,  fazem  bailar, com maestria, os pincéis sobre uma tela em branco, respeitando a mistura de cores, definindo melhor o seu estilo.

Porém, alguns questionamentos daquela época permaneceram e eu continuo a buscar respostas que penso que nunca terei, como, por exemplo, se o vermelho que eu enxergo seria o mesmo que o olhar do outro vê. Se não for, paciência. Nesta fase da minha vida, busco a liberdade de viver, por mim mesma, cores, sentimentos, sons e ideias, procurando não me deixar manipular pelo olhar do outro, o gosto do outro, a opinião do outro. Horizontes coletivos e  particulares são ambos igualmente infinitos e não merecem ser rebaixados a uma racionalidade rasa, mas  nos exigem um silencioso respeito e, se possível, acompanhado também de certa reverência.

Este meu proseio me faz lembrar de uma tarde parisiense tempos atrás, quando, em visita ao Louvre, ao lado de uma querida amiga, parávamos, encantadas, diante das preciosas telas. Eis que surge, imponente, “Liberdade Guiando o Povo”, uma visão do artista plástico Eugene Delacroix sobre a Revolução Francesa, um quadro que chamou a atenção tantos dos pacatos quanto dos revolucionários. Empaquei diante dele.

Não me perguntem o motivo. Como já expliquei, não levo jeito para ser crítica de arte. Então minha amiga, uma estudiosa de História, além de ser psicóloga por formação, percebendo meu interesse, desandou a me explicar tim-tim por tim-tim o significado metafórico dos detalhes: as casacas, as cartolas, os tipos de armas, as bandeiras etc... Tentei me abstrair para apenas contemplar, em silêncio, aquela visão impactante.

A voz da minha amiga foi ficando distante, enquanto deixei fluir minha imaginação. “Dona Liberdade” passou a ser “Dom Libertador Guiando o Povo”,em que um homem  carregava nossa bandeira (mas não o mosquetão, pois  abomino armas), conduzindo o povo a um Brasil mais justo e humano, onde mulheres não fossem vítimas de violência e discriminação salarial, índios, negros e homoafetivos fossem respeitados em seus direitos e honrados em sua cidadania; crianças e adolescentes não fossem cobrados e punidos por uma culpa que nunca foi deles, mas de quem se recusou a lhes dar oportunidade de educação, saúde, segurança, cultura e lazer. E foi assim que,  a  partir de um quadro, iniciei a exercitar meu sagrado direito de viver minha imaginação diante  da vida.  E é  bom. E é  belo. 

* Integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e da UBE-MS

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