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Campo Grande - MS, domingo, 16 de dezembro de 2018

CENAS

Leia a crônica de Sylvia Cesco:
"Carnaval de Glória"

17 MAI 2018Por DA REDAÇÃO07h:30

Era para ser um domingo comum: almoço com amigas, um cineminha ou quiçá o silêncio de um quarto, com um livro encantando minha tarde...Não foi. De repente me vi em meio a uma profusão de cores, sorrisos largos de amigos, flashes, abraços de encontros e reencontros, de modo amplo, geral e irrestrito. Uma lindíssima baiana, de nome Zezé do Acarajé, veio ao meu encontro vestida impecavelmente de branco que se esparramava pela sua ampla saia rendada, blusa tipo bata e um grande turbante, conhecido como ojá, dando um equilibrado volume à cabeça.

Uma larga faixa verde drapeada compunha a vestimenta daquela mulher que estacionou sua simpatia à minha frente, com uma bandeja nas mãos, perguntando se eu aceitava uma caipirinha. Antes de responder, prestei atenção em seu rosto com impecável pele de veludo cor da noite e onde cintilavam duas luminosas luas verdes. Naquele exato momento tive a sensação de que nosso Machado de Assis, especialista em analisar os olhos femininos das mulheres nos seus contos e romances, por certo escreveria algo para Zezé do Acarajé, tal como publicou em Falenas, seu segundo livro de poesia: [...] “Musa dos olhos verdes, musa alada/ Ó divina esperança...”. Meu pensamento retornou com a mesma velocidade com que foi parar nas páginas machadianas e respondi à baiana de branco que aceitava, sim, a caipirinha. Não sou de beber álcool. No máximo, uma taça de um bom vinho. Mas resistir quem há de ao sorriso da Zezé do Acarajé?

Além de tudo, o motivo é justo, mais do que justo: é justíssimo. Estamos todos ali, na Toca do Tigre, para oficializar, com uma deliciosa feijoada, o lançamento do samba-enredo para o Carnaval de 2019 da Escola de Samba “Deixa Falar” e que será sobre a Profa. Maria da Glória Sá Rosa. Isso mesmo! Essa escola, que foi campeã do Carnaval de 2018 homenageando um dos nossos mais importantes memorialistas, o fotógrafo Roberto Higa, volta-se agora para o ícone da cultura sul-mato-grossense, a querida Glorinha.

Quando o estilista e figurinista Francis Fabian, da “Deixa Falar”, me procurou para prosear um pouco mais sobre a homenageada, eu pressenti imediatamente que a diretoria dessa escola, presidida por Salvador Dódero, estava no caminho certo ao ouvir os familiares e os amigos que conviveram intensamente com a Mestra. Por certo que todos testemunharam o valor da pequena/grande mulher que chegou de Mombaça e criou, em terras pantaneiras e cerradenses, um verdadeiro movimento nos moldes do Carnaval, entendido como um processo de construção sociocultural e artística. Afinal, Glorinha, mulher à frente do seu tempo, incentivou a formação das alas dos nossos escritores, dos poetas, pintores, compositores, intérpretes, teatrólogos, numa imensa e prazerosa alegoria. Suas inúmeras atividades e criações – livros, aulas, palestras, cursos, programas de rádio, teatros, festivais de música, exposições de artes plásticas, cineclubes – sempre receberam dez nos quesitos Evolução, Harmonia e Conjunto, ao desfilarem pela grande Avenida do Conhecimento. Seu G.R.E.S. foi o do Incentivo, e todo início de ano Mestra Glorinha já definia seu enredo para milhares de alunos: “Voe. Você pode. Você consegue. Vá ensolarar o mundo!”.

E voamos. E conseguimos. E buscamos pelo glorioso Sol, que jamais se escondeu, mesmo depois de ela ter nos deixado em 28 julho de 2016 para ir morar no Recanto das Sagradas Nuvens. Naquele domingo, o Sol de Glória explodiu majestoso, lá pras bandas da Vila Nasser, ao som das caixas floreadas, dos surdos imponentes, dos lúdicos e agitados repiques, chocalhos, agogôs e tamborins, tudo sob a batuta do mestre de bateria Marcelo Peres, agitando a elegância do mestre-sala Rodrigo e da porta-bandeira Nininha, o requebro frenético de maravilhosas passistas e de mais de centenas de carnavalescos, dentre eles, um incontável número de ex-alunos, para homenagear, com muita alegria e samba no pé, aquela que, tal como o sociólogo Roberto da Matta, também nos ensinava que o Carnaval é um ritual de promoção de identidade social, um espaço de questionamento de normas, de libertação das repressões, de integração cultural. E que, mesmo para os tímidos ou para os que afirmam não gostar de Carnaval, existirá sempre a verdade daqueles versos drummonianos: “O pandeiro bate/É dentro do meu peito/mas ninguém percebe.”

* Professora, escritora,poeta. Diretora cultural da UBE/MS.

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