domingo, 22 de julho de 2018

CENAS

Leia a crônica de Oswaldo Barbosa de Almeida: "A primeira TV"

12 JUL 2018Por 07h:30

A televisão no antigo estado de Mato Grosso veio pelas mãos dos pioneiros irmãos Zahran, com a instalação da TV Morena em Campo Grande e a TV Centro América em Cuiabá. Aqui a inauguração se deu no mês de dezembro de 1965. Alguns anos antes eles, também pioneiramente, haviam trazido o gás de cozinha e os fogões alimentados por esse combustível, através da Copagaz. 

Exatamente um ano depois da chegada da televisão a esta morena cidade, pude adquirir nosso primeiro aparelho receptor dos sinais mágicos, um modesto modelo com tela de 15 polegadas, com suas imagens em preto e branco. Comprei-o em São Paulo, na antiga loja de departamentos Mappin, situada no centro daquela metrópole, vez que o preço era inferior aos então praticados em Campo Grande. 

Foi quando estive na Paulicéia, em dezembro de 1966, para rescindir meu contrato de trabalho com o laboratório farmacêutico onde exerci, por minguados três meses, a frustrante (para mim) atividade de vendedor-viajante, e apresentar-me ao Banco do Estado de São Paulo a fim de tomar posse no cargo de Escriturário naquela instituição bancária, como narrei em texto anterior, publicado aqui nesta página.

Porém, a vinda desse aparelho para Campo Grande tornou-se uma verdadeira epopeia. Por essa época, nossos raros deslocamentos até São Paulo (onde moravam parentes), se davam através dos trens da Noroeste do Brasil até Bauru, e dali pela Cia. Paulista até a capital, uma vez que não havia asfalto nas estradas de Mato Grosso, e o avião estava fora do alcance de nossos bolsos.

Como eu voltaria de trem, pedi ao meu sogro, que lá passava uma temporada nacasa de uma das filhas, que despachasse o aparelho, na embalagem original, por uma das empresas aéreas que pousavam em Campo Grande. Voltei para casa e ele foi ao aeroporto de Congonhas, não conseguindo fazê-lo, porém: todas as empresas se recusaram a aceitar o transporte da encomenda, devido ao elevado risco de danos. Resultado: ele acabou vindo de trem e trazendo o volume, escondido na cabine do vagão de passageiros em que viajava (teria de despachá-lo como bagagem, mas os riscos de dano seriam grandes). 

O estratagema quase desandou: um fiscal do vagão em que viajava entrou na cabine para conferir o bilhete de passagem e se deparou com a caixa, exigindo que ela fosse despachada, alegando ser proibido o transporte de volumes na cabine. Foi preciso muita insistência e, ao final, um “agrado” ao funcionário para permitir o transporte na cabine. Mas, avisou ele, meu sogro teria de disfarçar muito bem ao desembarcar, para que o chefe não percebesse a irregularidade. No fim, tudo deu certo, e pudemos ver em casa a programação da hoje extinta TV Excelsior, de São Paulo, retransmitida pela TV Morena. A vantagem no preço desapareceu com o custo da cabine que meu sogro teve de tomar, além da “gorjeta” ao fiscal. Era o único aparelho nas vizinhanças de onde morávamos, despertando a curiosidade de alguns vizinhos que, desagradavelmente, vinham à nossa janela para assistir aos programas exibidos.

*Integrante da Academia Sul-mato-grossense de Letras e da UBE-MS

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