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Campo Grande - MS, segunda, 17 de dezembro de 2018

Cenas

Leia a crônica de Maria Adélia Menegazzo: "Liquidação"

17 ABR 2018Por DA REDAÇÃO07h:30

Abro os jornais, as revistas, os e-mails e são muitas as liquidações: de livros, de vinhos, de roupas, de sapatos, de produtos de beleza. Liquida-se para ajustar uma situação. Por isso também se liquidam partidos, verbas e políticos, e amizades. Seria bom se eu pudesse entrar em liquidação também. Começaria pelos meus livros que, hoje, não fazem senão ocupar espaço, juntar poeira. Trabalho desnecessário. Não dou mais aulas, não preciso mais do conhecimento específico. O que ficou na memória serve para o resto da vida, mas seriam apenas os teóricos… 

Depois vêm os documentos: mais de três décadas são o bastante para que um mar de papéis inunde gavetas e armários. Pastas de currículo; pastas de disciplinas; pastas de aulas; de recortes de jornais; gavetas de fôlderes de exposições; caixas de textos. Cada etapa, muitas caixas. E cadernos. Mania de preparar aulas e deixar espaços para incluir exemplos de poemas, de romances, de dramas, de músicas, de filmes, de fotografias e obras de arte. 

Fazer o quê? Quem guarda não recicla? Mas tenho pra mim que chega um momento em que se guarda apenas o que tem sentido pela memória. Há de chegar a hora de liquidar os excessos.

Todo mundo anda reclamando das redes sociais, que se tornaram um ninho de fakes. Mas quando não foram? Com as centenas, melhor dizendo, milhares de aplicativos, você pode ser o que quiser. Sei que estamos rodeados de perfis falsos e de falsos perfis. Custei a entrar na rede, mas que ela está cada vez mais esquisita, isso elá está. Ainda acredito mais na palavra escrita, impressa. Ainda leio jornais, preciso do compromisso daquilo que está impresso, posto e assinado. Se concordo ou não concordo, vai de mim decidir, e não um monte de mãozinhas, carinhas, coraçõezinhos. É mais fácil, eu sei, mas é melhor não ajudar essa apatia, esse embotamento, essa obsessão de dar palpite. Às vezes, não resisto, mas sempre me arrependo, porque tenho certeza de que não vou mudar o modo de pensar de quem se manifestou nem o meu. Então? Excessos.

Difícil ter um único ângulo, um consenso sobre o que quer que seja, além de ser um tédio, mas é impossível discutir seriamente usando um número determinado de letras ou o espaço exíguo de um aplicativo de mensagens, que foi criado para comunicações rápidas. Não pode sair nada sério desses meios. É este vazio e esta fluidez (ou liquidez) que vêm formando uma realidade cada vez mais ilusória, impalpável. Que tipo de experiência pode ser compartilhada por aí?

Para terminar, vou deixar de escrever esses textos-crônicas porque eles não têm mais sentido. Comecei a escrevê-los porque tinha algum tempo ocioso e queria me ocupar. Hoje, não quero mais ocupar nem me ocupar, estou desocupando o espaço (continuo na contramão da história). Não sei se definitiva ou temporariamente, eles se tornaram excessivos.

Obrigada aos leitores e às leitoras do Correio do Estado que me acompanharam, esperando que eu tivesse algo a dizer.

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