Campo Grande - MS, quinta, 16 de agosto de 2018

Cenas

Leia a crônica de Lucilene Machado:
"Coisas que eu não sei"

15 MAI 2018Por DA REDAÇÃO07h:30

Queria falar tantas coisas que não saem. Fico tentando relembrar um idioma esquecido que perdi ao fim de algum caminho. Tanta coisa que nunca vamos dizer porque não compreendemos o coração cartesianamente. Tanta coisa que não vamos entender porque não vemos o coração do outro por dentro. 

O coração mais perto do qual eu cheguei foi o do meu pai. Ainda assim ele se foi sem que eu entendesse coisas que ele gostaria de me traduzir. Ninguém tem acesso à real experiência do outro, por mais íntimo que seja esse outro. A rigorosa relação do homem com suas angústias sempre será traduzida por uma máscara que não sabemos significar. 

Também tenho coisas aprisionadas para sempre. Quem não tem? Há mais sentimentos do que palavras. Depois da saudade ninguém inventou uma palavra para parir um sentimento novo. Mas as pessoas estão grávidas, isso eu sei. Ontem vi um moço no semáforo vendendo dropes em uma cadeira de rodas. Há muito que ele faz daquele ponto seu lugar sagrado. Ali ganha o pão de cada dia. Faço questão de conduzir à esquerda, só para ter a chance de contemplar os seus olhos e experimentar um diálogo. Mas as palavras verdadeiras não saem, somente as falsas: “Uma goma, dessa verdinha, por favor”, “Obrigado, moça, bom-dia, boa semana, bom ano...”. 

Tem gente que parece que é de Deus, não do Deus que se propaga hoje, do Deus que enriquece as pessoas que gritam o seu nome, mas de um Deus antigo, velho, que veio ao mundo, há muito tempo, para salvar uma raça maligna cheia de preconceitos, e essa raça, dita humana, o matou. 

Tenho medo do humano de olhos embaçados. Gosto de olhar dentro. Acredito que em várias partes do mundo existam pessoas, como o rapaz da goma verde, vivendo essa espécie de sagração poética em uma esquina qualquer. Vez por outra, uma epifania mágica no encontro dos olhos, subitamente um reconhecimento, depois o desvio, não se suporta o maná nesse deserto de sentimentos.

Vamos aprendendo a reconhecer os guardadores de coisas que não se dizem. São distraídos, olham para a natureza e para as pessoas. Deixam sinais mesmo em dias de tormentas. Encantam-se como crianças. As árvores crescem aos olhos deles. A vida cresce, o século cresce e eles se agigantam pelos caminhos secretos de Deus. 

Deus é tão secreto quanto os sentimentos que não têm nome. A liberdade se faz inteira embaixo de seu nome, mas os homens gostam de amarras, daí esse distanciamento do divino. Para o vocábulo “Deus” não há conceito pronto. Deus é palavra, e a vida se faz por meio dessa palavra, rompendo-a como a criar uma porta. O nascimento é o amor total. O amor se esfregando na cara do mundo. O amor abrindo as pálpebras, esticando a pele e se instalando com a mais exagerada ternura. Depois o entendimento vai padronizando tudo, o amor tem que se adequar às regras, tem que ser nomeado. O amor ganha filtro. O amor escurece. O amor fica humano, tem medo, se perde, se põe preço, o amor joga, disputa ou necessariamente não precisa existir, pode ser inventado. 

O último amor que inventei me olhava pelas costas. Demorei a girar porque tive medo. Ele tinha olhos-verdes-ocultos onde eu poderia nadar para sempre feito um peixe. Mas veio o temor. Ele se espantou com o meu jeito de carregar a vida em pequenas palavras, com as histórias postas na mesa, com os sonhos querendo um lugar... não sei quanto tempo durou, se foram dias, meses ou séculos. A única coisa de que sei é que ao final ele me cuspiu palavras como se fossem pedras e eu fiquei sentindo coisas que não sei dizer...

*Professora, cronista e escritora

 

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