Campo Grande - MS, quarta, 22 de agosto de 2018

opinião

José Neres: "Zumbis on-line"

Professor, escritor, doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Uniderp

3 JUL 2017Por 01h:00

O cenário pode ser qualquer um: shopping, praça, escola, faculdade, restaurante ou mesmo um lar... As personagens podem ser crianças, adolescentes, adultos ou idosos. O enredo será, com poucas modificações, o mesmo.

Diversas pessoas, de idades variadas, estão em um mesmo ambiente. Silêncio total. Até mesmo os sons externos parecem não existir. As pessoas sentam-se, levantam-se, andam de um lado para o outro desviando-se dos obstáculos de forma automática, sem levantar a cabeça.

Comem e bebem sem atentarem para o que consomem. Voltam a andar, sentam-se, levantam-se. As cabeças estão baixas e os olhos sempre fixos em um objeto reluzente que trazem nas mãos, como se fossem extensão de seus corpos.

As linhas acima poderiam servir como uma espécie de storyline para roteiro de uma peça ou de um filme de temática non-sense. Mas não é bem assim. Esse enredo faz parte de nosso cotidiano, e as personagens são nossas conhecidas, embora nem sempre percebam a nossa existência. A ação é repetitiva e não precisa de ensaio.

Tudo é natural. O objeto que todos trazem nas mãos é um celular de última geração conectado à internet.
Faz muito tempo que o aparelho de telefonia móvel deixou de ser usado para alguém falar e ser ouvido. Ele acumulou inúmeras outras funções e hoje é banco, televisão, computador, agenda, diário, rádio, caderno, biblioteca, mapa, álbum fotográfico, guia de diversões, etc.

É também uma forma de silenciar amigos e de ignorar as pessoas que estão próximas, sob a desculpa de constante comunicação com quem está distante.

Nos ambientes coletivos, e nos privados também, as pessoas assumiram um comportamento que pode ser comparado ao dos zumbis, os seja, estão vivas, andando, mas parecem alheias à realidade circundante.

Aparentemente, o mundo pode vir abaixo, desde que a conexão com a internet se mantenha estável. Rapidamente, amigos, colegas, parentes, vizinhos, as demais pessoas, e até mesmo os próprios zumbis pós-modernos, deixaram de ter cheiro e calor, passando à condição de meros contatos on-line (ou não) em uma agenda cada vez mais longa e com vários grupos adicionados constantemente.

O advento da comunicação instantânea, com suas inúmeras facilidades, acabou fortalecendo o paradoxo camoniano de sentir-se “solitário entre gentes”.

No meio de uma multidão, as pessoas isolam-se diante de suas telas e acreditam que estão acompanhadas de pessoas que não estão fisicamente por ali. E, mesmo quando ocorre um encontro corpo a corpo, não é raro o caso em que cada um dos elementos empunhe seu celular e comece a bater papo usando um dos inúmeros aplicativos criados para este fim.

Sorrindo para as telinhas e fechando a cara para quem ousar interromper suas conversas virtuais, os zumbis parecem frequentar um mundo particular no qual é possível ziguezaguear por ruas e avenidas, com passos sincronizados, onde os involuntários encontrões são desculpados com monossilábicos grunhidos.

Nesse perigoso mundo de silenciosas comunicações, os transeuntes escapam milagrosamente de serem atropelados por veículos cujos condutores também dirigem e teclam ao mesmo tempo e onde os guardas de trânsito, alheios às buzinas incessantes, encostam-se no poste mais próximo para receber e enviar mensagens.

No afã de uma conexão 24 horas com o mundo, recebendo informações em tempo real a todo momento, nossos zumbis não têm mais dúvida de que a vida on-line é a própria realidade e que tudo fora dela parece tão estranho com se voltassem para o tempo das sombras e das cavernas. Podem até perder a conexão com o mundo, mas jamais com a internet. Tudo pode ser feito on-line. Ficar off-line, para eles, equivale a morrer.

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