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Campo Grande - MS, quinta, 15 de novembro de 2018

OPINIÃO

José Neres: "Pistolagem virtual"

Professor, pesquisador e Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Uniderp

10 AGO 2017Por 01h:00

 O mundo vive em constante processo de modernização. Embora o passado sempre tenha seu espaço na vida das pessoas, pois é a base para tudo o que se tem hoje e para o que se terá amanhã, sempre é possível surpreender-se com as inovações oriundas da criatividade humana, que funciona a todo vapor, seja para o bem, seja para o mal.

Como não poderia deixar de ser, as violências acompanham esse ritmo de evolução e não deixam de surpreender as pessoas com o aparecimento de variações cada vez mais refinadas de torturar de modo físico ou psicológico os indivíduos tidos como inimigos ou considerados como ameaças a algum projeto pessoal ou coletivo. Entre essas catastróficas inovações está a chamada pistolagem virtual.

A contratação de pistoleiros não é novidade no Brasil. Em tempos de barbáries e de ódio, muitas pessoas insatisfeitas com a presença de alguém ou mesmo como forma de retaliação contratam indivíduos cheios de coragem e vazios de escrúpulos para eliminarem os desafetos. Os noticiários estão repletos de casos assim. Embora a palavra recorrente seja pistolagem, nem sempre uma arma de fogo é o instrumento utilizado para esse tipo de crime. Há quem prefira executar o serviço usando facas, veneno, cordas, atropelamentos e até a internet.

Internet? sim. A internet, pois esse tipo de crime há algumas décadas deixou de ser exclusivo da esfera física e passou a atingir também a honra e a reputação das pessoas. Munido de um computador pessoal, um acesso à grande rede, uma senha, de total falta de escrúpulos e protegido pela sensação de impunidade proporcionada por um hipotético anonimato, o pistoleiro virtual está sempre disposto a ganhar dinheiro destruindo vidas.

Assim como na pistolagem física, a virtual também é exercida por seres de todos os sexos e de diversas idades, mas há de se levar em conta um diferencial: a escolaridade. Os pistoleiros tradicionais são estereotipados - com exceções - como elementos rudes, de difícil trato e com extensa ficha policial, quase sempre sem estudo e que dificilmente comentavam seus trabalhos em público. Já a moderna versão virtual tem cursos superiores, vive nas altas rodas da sociedade, frequenta ambientes requintados, é bem relacionada, mas também evita falar de seus feitos criminosos.

Esses profissionais nem sempre são tratados como criminosos e em público costumam usar como adorno a máscara de donos da verdade e de defensores da moral e dos bons costumes. Porém negociam silenciosamente o preço de suas tocaias virtuais e, diante de informações privilegiadas, tais meliantes alteram fatos e diálogos, fazem montagens de fotos, criam situações aparentemente verossímeis, gritam e vociferam quando lhes convém, calam e esquecem quando são bem pagos por pretensas vítimas que também os contratam. Trabalham para quem paga mais e o empregador de agora pode transformar-se em presa momentos depois. Tudo depende dos interesses.

Esse tipo de pistoleiro usa como arma a palavra e as informações. Jamais aperta o gatilho do revólver, prefere apertar a tecla enter e ficar vendo a vítima agonizar. Os efeitos desse tipo de crime são devastadores. O alvo continua vivo. Vivo o suficiente para ver sua biografia ser destruída e sua honra irremediavelmente manchada. Os boatos divulgados causam danos irreversíveis e as retratações nunca têm a mesma relevância que as acusações.

No entanto, acompanhando os noticiários, é possível perceber que algumas dessas vítimas têm recorrido às versões anteriores desses profissionais e patrocinado fatídicos encontros entre a tradição e a modernidade. E, fora do ambiente virtual, a tradição tem prevalecido. No final das contas, tudo é barbárie.

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