Campo Grande - MS, domingo, 19 de agosto de 2018

OPINIÃO

José Carlos de Oliveira Robaldo: "Drogas do país vizinho: até o boi paga o pato"

José Carlos de Oliveira Robaldo é mestre em Letras - UEMS

11 SET 2017Por 02h:00

A Folha de S. Paulo (22.8.17, p. B4) trouxe uma longa e preocupante reportagem feita pela agência Pública sobre a maconha produzida no Paraguai, ao longo da fronteira com o nosso País, mais especificamente nas proximidades de Ponta Porã e adjacências. A reportagem na íntegra pode ser vista no site (www.apublica.org). 

Essa matéria chama atenção especialmente para três aspectos: a facilidade como a maconha é produzida no País vizinho; o nível de corrupção ainda existente nas nossas fronteiras e, o que é pior, a potencialidade do mal à saúde dos usuários que a maconha produzida nessa região pode causar aos seus usuários, o que não deve ser diferente das demais. 

Relata a matéria que a reportagem, provavelmente com autorização do comando do tráfico, acompanhou por cerca de 15 dias o contexto como a maconha consumida é produzida não só no nosso País como além das suas fronteiras.

A propósito, relata em síntese que a droga que a maioria dos usuários brasileiros consome é “marrom e fedorenta”, bem diferente da esverdeada forma de flor em que ela é colhida. Isso “se deve à maneira inapropriada como os paraguaios secam, processam, estocam e prensam as flores”, o que favorece a presença de fungos.

E isso pode acarretar consequências graves à saúde dos usuários, pois a exposição frequente a esse fungo, isto é, “fumando prensado mofado”, aumenta a possibilidade desse fungo causar problemas à saúde dos seus consumidores, como avalia o médico João Menezes, com doutorado em biofísica pela UFRJ e com pós-doutorado em neurociências no Massachusetts General Hospital e Harvard Medical School. 

Contudo, a despreocupação com a saúde dos usuários é total, é o que se constata na reportagem quando relata que se deparou com “uma tonelada de maconha podre e fedida”, com “cheiro de amoníaco e azedo de maconha estragada”, mas que, “mesmo assim, ela será vendida no Brasil”.

A matéria objeto da aludida reportagem contribui para a compreensão sobre os números de apreensões de maconha feitas nos últimos anos em Mato Grosso do Sul. Em 2016, cerca de 300 toneladas foram apreendidas. Neste ano (2017), nos seis primeiros meses, já foram apreendidas aproximadamente 170 toneladas, o que permite estimar que as apreensões neste ano serão ainda maiores. Isso é apenas o que se apreende.

Com efeito, considerando a extensão de fronteira seca somada à carência das forças policiais, já se pode imaginar o volume de droga que passa ileso e que se destina a outros mercados consumidores, alimentando, assim, os grandes centros, entre eles a criminalidade organizada do Rio de Janeiro.

A propósito, relata a matéria que “Numa noite, chegou a notícia de que um carregamento de 1 tonelada que havia sido despachado pelo grupo havia “encostado” em São Paulo; Gérson (nome fictício) colocou o carregador de 32 munições em sua pistola automática e disparou todas para o alto, numa rajada que durou menos de três segundos, num barulho de explosão que fez pular quem já estava na cama.

No dia seguinte, ordenou que matassem um boi. Roque (nome fictício) o descarnou, jogou a picanha imediatamente na grelha, separou as costelas e demais carnes nobres no congelador e salvou os ossos e restinhos de carne para enviar aos peões na roça...”.

A matéria revela o grau de corrupção que existe por trás do submundo do tráfico de entorpecente, especialmente maconha, produzido no País vizinho. De vez em quando, uma operação midiática para fazer de conta que as respectivas autoridades estão empenhadas em combater o tráfico de drogas.

Nessa até mesmo o então ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, atualmente ministro do STF, inocentemente participou como coadjuvante dessa encenação, eis que ‘desceu de um helicóptero com homens da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) e derrubou a machetazos (golpes de facão) meia dúzia de pés de maconha...”.

Diz ainda a reportagem que “Quando é assim, é tudo negociado, a gente entrega uma roça meio caidinha pra eles, tira tudo que vale alguma coisa de lá, deixa só as plantas. Pode ver que ninguém nunca é preso nessas operações”. 

Enfim, esse é o quadro que nos cerca e até o boi paga o pato.

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