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ARTIGO

Gilson Cavalcanti Ricci: "Tipos populares de Campo Grande"

Advogado

8 NOV 19 - 02h:00

Andavam a esmo pelas ruas de Campo Grande. Cada um  carregando na alma o sofrimento estampado nas faces carcomidas pela fome e pelo cansaço. Destaco alguns, cujas tragédias transformaram seus protagonistas em míseros farrapos humanos:

Josetti, o mais famoso, perambulava pelas ruas vestido sempre com dois paletós encardidos, um por cima do outro, três gravatas entrelaçadas no pescoço e vistosos anéis em cada dedo das mãos. Era um tipo taciturno, aparentando uns cinquenta anos de idade. Ficava horas a fio parado sob as marquises, calado friamente. Certa vez, alguém o ouviu dizer que tinha visto Jesus Cristo durante a noite anterior. Segundo comentários, Josetti fora contador do Banco do Brasil numa importante cidade do interior de São Paulo. Era casado com uma bela mulher, pela qual nutria grande paixão. Certo dia, chegando em casa, não a encontrou, deparando-se com uma carta sobre a mesa. Leu a mensagem na qual a mulher se despedia, tomando rumo ignorado. Josetti ficou totalmente desorientado. Procurou-a por todos os cantos da cidade. Comunicou o fato à polícia, ficando à espera de notícias sobre o paradeiro da consorte.

Depois de muito procurá-la, foi informado que ela viajara para o Mato Grosso em companhia de um homem desconhecido. Josetti enlouqueceu. Resolveu procurá-la na região indicada, todavia sem êxito. Depois de muito procurar a mulher amada, chegou a Campo Grande, ficando a perambular esfarrapado pelas ruas, vivendo da caridade das pessoas até quando seu corpo foi achado nos escombros de um prédio abandonado.

Barbosa era garimpeiro. Trabalhou vários anos no garimpo, encontrando finalmente um riquíssimo diamante. Com muita alegria, festejou o rico achado com os colegas até ao amanhecer, quando adormeceu. Ao despertar, teve a infeliz surpresa de lhe terem roubado o valioso tesouro. Procurou-o por todas as partes da corruptela. Pediu ajuda à polícia, todavia infrutiferamente. Não encontrando a pedra preciosa, ficou totalmente desorientado. Chegou a Campo Grande depois de muito perambular por várias cidades de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, sem ter notícias de seu diamante, até que chegou a Campo Grande, onde ficou perambulando a esmo pelas ruas, faminto e maltrapilho, causando piedade às pessoas, que lhe davam comida e roupas usadas. Barbosa passou a ser um tipo estranho. Sempre que alguém jogasse uma bituca de cigarro acesa, corria e a pegava do chão, segurando-a com as mãos para cima com um olho aberto e outro fechado, como se analisasse uma preciosa pepita faiscante. 

Pompílio era um rapaz negro, quieto. Ficava horas a fio sentado num dos bancos da Praça da Liberdade (atual Praça Ari). Fizesse frio ou calor estava sempre encapotado com um capote surrado, doado por alguma alma piedosa. Quando alguém lhe dirigia a palavra, respondia com um sorriso pálido. Diziam que ele fora peão em uma fazenda situada nos arredores de Campo Grande, quando outro peão lhe roubara a mulher, uma bela mulata. Assim como o Josetti, Pompilio procurou a amada durante muito tempo, sem êxito. Veio para Campo Grande, onde ficou perambulando pelas ruas dormindo sob as marquises, e durante o dia inteiro ficava na praça sentado por longo tempo, calado dentro do seu capotão, inerte como uma estátua de pedra.

Caruncho, moço ainda, aparentava uma velhice precoce. Corria dos moleques por onde passava, os quais lhe gritavam o apelido e lhe jogavam pedradas. Caruncho raptara a namorada, e ambos os enamorados fizeram o pacto de morte à moda Romeu e Julieta, como era comum acontecer na época em Campo Grande, diante da reprovação enérgica do pai da moça ao namoro. A namorada não hesitou heroicamente de ingerir o veneno, tendo morte horrenda e instantânea. O rapaz se acovardou, fugindo apavoradamente do local, enquanto a moça se contorcia nos estertores da morte. Caruncho se tornou um mísero farrapo-humano a perambular abestalhado pelas ruas, até quando seu corpo foi encontrado em decomposição dentro de um bueiro.

Vários outros famosos andarilhos povoaram as ruas de Campo Grande, como a famosa Maria Bolacha e ouros, que marcaram a cidade com a cor cinzenta de suas desgraças, despertando a compaixão de quem os visse perambular  na chuva e no frio, ou sob o sol escaldante da terra morena.

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