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ARTIGO

Gilson Cavalcanti Ricci: "Roma partida"

Advogado

22 JUN 2017Por 02h:00

Itororó. Naquela manhã, suas águas claras tornaram-se vermelhas como urucum. Duas tribos guaranis irmãs estavam em guerra. De um lado e de outro, os guerreiros colocavam-se dispostos às últimas consequências, para vencer ou morrer! Guerreiros audazes lutaram heroicamente como leões bravios – como se Roma de repente partisse em duas, e as partes desprendidasse voltassem uma contra a outra, engalfinhando-se ambas em um feroz entrevero corpo a corpo, em uma cruenta batalha fratricida! – Dois bravos destacaram-se à frente de seus guerreiros: o Duque de Caxias, comandante em chefe do Exército Imperial, um ancião de quase setenta anos; e o General Bernardino Caballero, comandante em chefe dos Exércitos da República do Paraguai, um moço de trinta anos. Nuvens negras ameaçadoras escureceram o céu, e o fragoroso ribombar dos trovões confundiram-se com o ensurdecedor troar dos canhões em brasa. Os guerreiros de Caballero, protegidos estrategicamente pelas escarpas do terreno ribeirinho, levavam vantagem sobre os guerreiros de Caxias, os quais começavam a retroceder desordenadamente.  

Sentindo aproximar-se a derrota iminente, o bravo generalíssimo passa pela tropa imperial brandindo a espada para o alto, ereto em seu fogoso cavalo, como se de repente tivesse recuperado o fogo da juventude. Em uma carga vigorosa e suicida, arroja-se sem temor sobre o inimigo, acompanhado de “batalhões galvanizados pela irradiação de sua glória”, bradando em alta voz “sigam-meos que forem brasileiros!” Como se atingidos por uma carga elétrica, seus guerreiros unem-se em uma corrente humana coesa. O velho comandante em chefe, esbelto em sua elegante montaria, tem a altivez do César romano! “Perfilamo-nos como se uma centelha elétrica tivesse passado por todos nós. Apertávamos o punho das espadas, ouvia-se um murmúrio de bravos ao grande marechal. O batalhão mexia-se agitado e atraído pela nobre figura, que abaixou a espada em ligeira saudação a seus soldados. Houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas, para caírem mortos adiante” (DIONÍSIO CERQUEIRA, testemunha ocular da guerra, em “REMINISCÊNCIAS DA GUERRA DO PARAGUAI”). 

No fim da tormenta, um saldo trágico, assustador: mais de três mil mortos e quatro mil feridos de ambos os lados! Bernardino Caballero espanta-se com o arrojo de seu intrépido adversário. Desfalcado pela violenta baixa de homens e armas em sua tropa, e sem meios logísticos para continuar o enfrentamento a seu ferrenho inimigo, ordena a retirada do que restou de seu esfarrapado exército. Caxias, valendo-se do momento, não deu tréguas. 

Determinou a seus soldados avançarem sempre à frente, até que chegaram diante do quartel general do ditador Francisco Solano Lopes, o qual, com seu binóculo inglês, assistira friamente o martírio dos valorosos soldados do Paraguai. Ao ver Caxias se aproximar, El Supremo – surpreendentemente – fugiu de seu posto, levando consigo tudo o que pôde. Não fosse o brio de Bernardino Caballero e seus bravos guerreiros, a honra militar do Paraguai estaria desacreditada perante o mundo. Caballero, em sua garbosa montaria, elevou a glória militar de sua Pátria ao panteão dos heróis do Novo Mundo.

No final da guerra, Bernardino Caballero foi feito prisioneiro do Império do Brasil. Conduzido ao Rio de Janeiro, foi recebido com respeito como herói de guerra. Viveu naquela cidade durante alguns anos na condição de prisioneiro de guerra. Todavia, durante todo o tempo em que esteve na Cidade Maravilhosa, jamais tivera tolhida sua liberdade de ir e vir. 

Recebia soldo do governo imperial, correspondente ao posto de coronel. Fez ali muitos amigos, como José Paranhos, futuro Barão do Rio Branco, com quem desfrutava ativamente a noite carioca. De volta ao Paraguai, chegou à Presidência da República, no período de 1880/1886 (DARIOTO, MALDITA GUERRA, pág. 419).

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