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Gilson Cavalcanti Ricci: "O fascínio da harpa paraguaia"

Advogado

2 AGO 2017Por 01h:00

A harpa paraguaia é um monumento divino! Tem o poder  místico de nos levar a lonjuras siderais. Seus acordes clássicos soam como um bálsamo anestésico às dores da alma.

É uma poção mágica a nos fazer viajar no enlevo de seus arpejos. Exemplo típico é o tradicional motivo popular “Pajaro Campana”, que fervilha como aríete a bater forte no coração.

É a ópera épica do Olimpo guarani, a reproduzir com admirável fidelidade o martelar do “ferreiro da selva” – a araponga do nosso rústico linguajar caboclo.

Campo Grande é a pátria brasileira da harpa paraguaia. É uma tradição viva de nossa terra o som metálico da harpa paraguaia a inebriar os ares da Cidade Morena.

Seus  efervescentes arpejos dominam as reuniões festivas da cidade, notadamente nos eventos sociais da tradicional Associação da Colônia Paraguaia de Campo Grande, onde a sociedade campo-grandense se reúne com a família no lazer dos finais de semana, para dançar e churrasquear.

Nessas ocasiões, a cidade consagra a tradição da harpa paraguaia como um patrimônio nativo, nascido e vivido nos bairros mais antigos da cidade, como o velho Amambaí, que recebeu as primeiras levas de imigrantes paraguaios e correntinos, que legaram à Terra Morena a polca paraguaia e o chamamé correntino, e o rico manancial de seus costumes - um deles o refrescante tereré nos dias de calor.  

O imortal harpista e célebre compositor paraguaio, Felix Perez Cardozo, é o pai da moderna harpa paraguaia. Ao modificar a estrutura do instrumento, ele elevou para trinta e seis o número de cordas, e introduziu a corda de nylon, em substituição à de crina de cavalo.

Assim, a harpa paraguaia melhorou o som, e tomou feições próprias, que a difere das harpas de outros povos. Revolvendo as páginas da história da humanidade, constatamos que a harpa, juntamente com a lira romana, é um dos instrumentos musicais mais antigos, atingindo atualmente mais de cinco mil e quinhentos anos, segundo os historiadores (Wikipedia).

Com o passar dos séculos, vários tipos de harpa foram utilizados por povos rústicos, predominando os hebreus. E o mais destacado de todos os seus virtuoses foi o Rei Davi, monarca hebraico do antigo Israel, que tocava a harpa como um instrumento vindo do Reino de Deus – motivo pelo qual o inspirava a escrever seus belos salmos.
   

A Espanha introduziu a harpa na América Espanhola, como um instrumento popular. Com a independência de suas colônias na América, foram preservados os costumes herdados dos colonizadores, como a tourada por exemplo, em alguns desses novos países, como México, Colômbia e Peru.

E muito especialmente, a música e os instrumentos musicais, como a harpa popular. Diferentemente de Portugal, que nada deixou de suas tradições no Brasil, levando embora o fado e as belas danças folclóricas.

Venezuela, México, Colômbia, Peru, Paraguai e Argentina, herdaram a harpa como instrumento popular, como já exposto.

No Paraguai, a harpa foi trazida pelo navegador italiano Sebastiano Caboto, em sua viagem de exploração pelo Rio da Prata em 1526, a serviço da Espanha. Com a chegada dos padres Jesuítas ao Paraguai, a harpa passou a ter utilidade religiosa nas igrejas, razão pela qual foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, chegando aos dias atuais como uma harpa de estilo próprio paraguaio, de inigualável beleza sonora.

Dentre muitos de seus imortais virtuoses, destaco o já mencionado Félix Perez Cardozo, que enriqueceu o panteão musical da gloriosa nação paraguaia, com páginas de sublime inspiração poético-patriótica, como: Carreta Guy’pe, Llegada, Che Valle Mi Yaguarón, Tren Lechero e inúmeras outras pérolas do Paraguai.

Ainda, na minha modesta opinião, Felix Perez Cardozo foi o mais notável harpista paraguaio, notadamente na interpretação do imortal motivo popular Guira Campana (Pajaro Campana). Ouvi-lo, através deste harpista, nos aproximamos do Reino de Deus! 

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