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Campo Grande - MS, sábado, 19 de janeiro de 2019

ARTIGO

Gilson Cavalcanti Ricci:
"A guerra do bairro Amambaí"

Advogado

7 JAN 2019Por 02h:00

A vida no País andava tumultuada, mormente quando os comunistas tentaram derrubar o bravo ditador Getúlio Vargas, para implantar no Brasil uma ditadura comunista. Três quartéis do Exército Brasileiro situados em regiões estratégicas foram bombardeados fragorosamente de surpresa, fazendo grande número de mortos e feridos, por motivo da forte resistência das unidades atacadas. Getúlio Vargas agiu com mão forte, mandando para a cadeia todos os líderes do fracassado movimento golpista, o qual ficou denominado pelos historiadores como “Intentona Comunista de 1935”.

Três sargentos nordestinos oriundos de uma das unidades atacadas, foram trazidos para Campo Grande a “bem da disciplina militar”. Segundo boatos, esses militares agiram em conluio com os agressores comunistas. O certo é que eles ficaram detidos em duas unidades de Campo Grande por ordem de Getúlio Vargas: um no quartel de artilharia, o 9º GAD, e dois no quartel de infantaria, o 18º BC. Ambos os quartéis ficavam de frente um para o outro, e passava  entre eles a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

Numa manhã fria e chuvosa de junho, a população de Campo Grande acordou com uma fuzilaria intensa, oriunda do 18º BC, atirando contra o quartel da frente, o 9º GAD. Os moradores do Bairro Amambaí, onde se situavam os quartéis, entraram em pânico com a gritaria da soldadesca no meio do intenso fogo da infantaria. Uns dez minutos depois ouviu-se um estrondo assustador. Foi um tiro de canhão disparado pelo 9º GAD, que derrubou quase inteiramente o pavilhão do corpo da guarda do 18º BC. Em seguida, outro fragoroso tiro de canhão derrubou o resto do pavilhão. E assim, consecutivamente, no espaço de umas duas horas seguidas, ouviam-se pavorosos tiros de fuzis, metralhadoras e canhões, que fizeram do pacífico bairro uma infernal praça de guerra.

Os humílimos moradores do Amambaí espremiam-se uns aos outros dentro do Armazém Leão do Norte, uma construção segura de alvenaria, para onde todos correram a fim de se protegerem das balas, que passavam zunindo sobre suas frágeis casas de madeira. Os soldados passavam correndo pelas ruas gritando slogans de guerra, com seus fuzis em brasa, como se estivessem no front – tal como um espetacular filme de guerra ao vivo -. Os soldados do 18º BC estavam prestes a atravessar a Avenida Duque de Caxias em direção do 9º GAD, situado no outro lado da avenida, quando, de repente, ouviram-se os apitos estridentes de uma locomotiva da Noroeste do Brasil, que vinha puxando uma extensa fila de vagões cargueiros. A surpreendente composição ferroviária vinha se aproximando afoitamente à frente dos dois quartéis em conflito, passando entre ambos lentamente com apitos alarmantes como a sirene de um caminhão de bombeiros, até estacionar totalmente no meio do fogo cruzado das duas cidadelas em acirrado combate, o que obstruiu completamente a visão dos combatentes dos dois lados. Durante a fuzilaria, e do canhonaço, o general-comandante tentou por todos os meios conter a insurreição, todavia sem resultado positivo, pois não conseguiu aproximar-se dos dois dos quartéis em guerra. Já passavam mais de duas horas de fogo cerrado de ambos os lados, quando alguém teve a oportuna e feliz ideia de colocar o trem no meio dos dois quartéis, com o objetivo de obstruir o alvo dos combatentes, o que deu fim à batalha.

Os bravos ferroviários, condutores da providencial composição ferroviária – o maquinista e seu ajudante-foguista -, foram homenageados pelo comandante militar em comovente solenidade pública, condecorando-os com a Medalha de Bravura. Passada a tormenta, surgiram comentários no meio do povo, sem faltar piadas sobre o pânico provocado pelo inusitado episódio de guerra no pacato Bairro Amambaí.

A batalha foi abafada pelo governo getulista, quedando-a fora da História do Brasil. Mas os protagonistas moradores daquele velho bairro a mantiveram viva na memória através da tradição oral, como uma lenda épica daquele recanto pitoresco da nossa amada Cidade Morena.     

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