Quinta, 14 de Dezembro de 2017

OPINIÃO

Gilson Cavalcanti Ricci: "A cabocla boia-fria"

Advogado

30 SET 2017Por 01h:00

Trabalhei na Agência Postal Telegráfica de Campinas, no Estado de São Paulo, na época do antigo Departamento dos Correios e Telégrafos. Naquele tempo, as estradas de ferro estavam em pleno funcionamento. Na verdade, o trem era o meio de transporte mais popular no Brasil, notadamente no Sudeste, Centro-Oeste e Sul. Fiz muitas viagens de trem pelo Correio Ambulante, em desempenho do serviço postal. Uma das minhas tarefas era substituir agentes postais em férias, o que me obrigava a viajar constantemente para localidades situadas na micro-região metropolitana de Campinas, ao longo dos ramais ferroviários. 

Certa vez, fui escalado para substituir o agente postal de Itaicy, uma cidadezinha aprazível situada num grande entroncamento ferroviário da Estrada de Ferro Sorocabana,  distante de Campinas uns cinquenta quilômetros. Possuía na época mais ou menos uns seis mil habitantes, e ficava escondida no meio dos imensos canaviais que a circundavam, nos quais trabalhava grande número de cortadores de cana apelidados de “boias-frias”, por conduzirem o almoço numa marmita, que requentavam em trempe improvisada no chão, num intervalo do trabalho em pleno canavial.  

Depois de alojado, comecei o expediente na agência postal, atendendo as pessoas que compareciam ali para o envio de cartas e encomendas. O público usuário era constituído na maioria de cortadores de cana oriundos de várias regiões brasileiras, predominando os nordestinos. Passados alguns dias, vi aproximar-se o vulto franzino de uma mulher. Notei que era uma cortadora de cana pelo traje típico, adequado para proteção contra o sol e a aspereza da cana: turbante desalinhado na cabeça, gibão sob um paletó rústico, culote de brim amarrado na cintura por um barbante improvisado, duas sacolas a tiracolo e nos pés um par de alpercatas de couro.     

 Entrou na agência postal pisando macio como se entrasse num templo. Disse que queria mandar uma carta para sua mãe na Bahia, mas não sabia ler e nem escrever. Prontifiquei-me a escrever a mensagem que ditasse. Ela então começou a ditar:          

“Mãezinha, tudo bem aí? Como está Mariazinha, tá boazinha? Estou com muita saudade dela, da senhora e de todos daí. Olha, estou mandando agora só quinhentos cruzeiros, mas no mês que vem mando mais um pouquinho. Estou trabalhando num canavial de São Paulo. Aqui faz muito frio. Saio bem cedinho para o serviço junto com outros trabalhadores, vamos num caminhão da empresa trabalhar todos os dias no canavial. Levamos a comida na marmita para almoçar no canavial mesmo, por isso o povo chama a gente de boia-fria. Aqui trabalha muita gente do Norte. Cuide bem da minha Mariazinha, diga a ela que logo que puder vou aí buscá-la. E o meu paizinho, já voltou? Fique calma mãezinha, um dia ele volta sim, se Deus quiser. Lembranças para todos daí. Beijos. Toninha”.

Em seguida preenchi o vale postal com a importância de quinhentos cruzeiros, oficializando dessa forma a remessa do dinheiro e da carta à destinatária na Bahia. A moça pegou o recibo e calmamente o dobrou, colocando-o dentro de um bornal de couro que trazia a tiracolo no seu lado direito. No lado esquerdo trazia uma sacola de pano, também a tiracolo, na qual carregava a marmita. 

De repente, a boia-fria encarou-me languidamente em sinal de agradecimento, realçando seus olhos límpidos levemente esverdeados, emoldurados por um rosto angelical, sem maquilagem, suave e belo como o de uma santa da Igreja Católica. Sorriu discretamente, pondo à mostra seus dentes  alvos como marfim. Saiu devagar, sem pressa. Vi pela janela o vulto esguio da cabocla seguir pela trilha do canavial, e desaparecer na direção do acampamento dos boias-frias.          

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