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Campo Grande - MS, segunda, 19 de novembro de 2018

OPINIÃO

Gilberto Verardo: "Uma relação mal resolvida"

Psicólogo/Psicoterapeuta

20 SET 2017Por 01h:00

A percepção dos contribuintes de que o Estado é lento e oneroso na relação custo x benefício tornou-se bem mais clara do que há dez anos, graças à nossa imprensa, contribuindo, ainda, para melhor compreensão dos direitos e deveres enquanto contribuintes e cidadãos. Por outro lado, enquanto prestadores de serviços essenciais, o serviço público vem decaindo de qualidade.

A cada novo governante empossado, o primeiro passo sempre é buscar uma nova aliança com os funcionários, buscando motivá-los a abraçar seu discurso programático, o que nem sempre acontece. O que realmente motiva funcionários públicos a prestarem um serviço de qualidade para a população? Difícil resposta, porém, não custa nada argumentar.

WINNICOTT, renomado pediatra e psicanalista do século passado, afirmava que um ambiente que oferece poucos ou nenhum desafio leva o indivíduo ao comodismo. Enfrentar desafios nasce no berço, diria ainda Winnicott.

A iniciativa privada, quando se depara com crises e instabilidade, reinventa caminhos para alcançar o mesmo objetivo – a sobrevivência. Na maioria das vezes, fazendo uma reeducação orçamentária.

O setor público, em crises, não usa a criatividade. Repete a fórmula que alimenta o ciclo das crises ocupacionais – desmotivação pessoal e, para contorná-la, expectativa de remuneração maior. É como se a baixa remuneração algemasse o talento, a criatividade, o esforço pessoal, o bem servir e o conhecimento técnico em uma redoma blindada apenas pela remuneração ou mesmo por uma carreira estável.

Enquanto na iniciativa privada a instabilidade é o combustível para a criatividade e para sair do lugar comum, no setor público se torna ameaça velada à estabilidade.

O Estado, como modelo de gestão de serviços públicos, está em crise de eficiência. O que esperar? Motivar, premiar, incentivar os servidores é a saída? Plano de cargos e carreira? Condições materiais de trabalho? Parece que nada disso tem funcionado nos últimos anos como estratégia de RH.

O projeto de lei do Senado (PLS) 116/2017, que entrou em tramitação no dia 20 de agosto, é uma das novas preocupações das entidades representativas dos servidores públicos. De autoria da senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE), o PLS discute a possibilidade de demissão de servidores públicos que tenham seu desempenho avaliado negativamente, acabando, assim, com a estabilidade desses profissionais. 

Por outro lado, o contribuinte perde a paciência cada vez mais e não aguenta mais afagos explicativos de deficit de pessoal ou de remuneração insuficiente. O setor privado faz a sua parte, sempre pressionado pela legislação fiscal e seus aparatos de controle tributário. O setor publico, pelo contrário, acomoda-se na fé pública outorgada e remunerada pelo setor privado.

Não é fora de lugar avaliar que a estabilidade pode, sim, levar uma pessoa ao comodismo, que por sua vez ensina o caminho para a má vontade e outros comportamentos de negação. Já a instabilidade, em que se conhece o jogo jogando, por outro lado, implica fazer a roda rodar, provocando movimento e saindo do lugar comum, que é sempre repetitivo e monótono. Neste sentido, a teoria de Winnicott, quando se refere às necessidades de se ter desafios no seu ambiente, incluindo o de trabalho, parece levar a duas outras reflexões – ou os administradores chefes não sabem apresentar desafios ou não conseguem despertar o engajamento do funcionalismo.

Não se pode negar que o Estado, em sua dimensão federal, estadual e municipal, encontra-se escravo da sua folha de pagamento, da aposentadoria do funcionalismo e da estabilidade funcional.

Na polícia militar, por exemplo, quem vai para a rua são os novatos. Os que vão se graduando assumem postos de comando e de gestão burocrática.

Está passando da hora de desconstruir a burocracia publica. O zelo pela observância das regras administrativas excessivas, chamada de burocracia, não pode servir como desculpa de morosidade, pois talvez esse zelo burocrático tenha ajudado a facilitar os caminhos do desvio do erário público, alimentando a corrupção. A transparência, junto da eficiência, não pode se esconder sob os tortuosos caminhos da burocracia e do desvio de função e de finalidade, as quais têm comprometido tanto a segurança como a educação pela cedência de pessoal da ativa para atuarem como seguranças ou cargos burocráticos em órgãos públicos diversos.

Pois é, gente. Enquanto isso, o setor privado tem de direcionar a criatividade e o talento, já cansado de tanta instabilidade causada pelos estáveis gestores públicos, para entender essa relação mal resolvida do setor público com o setor privado e pensar, a cada dia inflacionário, como se virar NOS TRINTA, não é?
Parece que quem busca a estabilidade não sabe lidar com crises. Certo ou errado?

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