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ARTIGO

Gilberto Verardo: "Uma colcha de retalhos"

Psicólogo

9 AGO 19 - 02h:00

Já tive uma colcha desta feita por uma senhora de 72 anos na época. Uma obra de arte a composição aleatória dos pedacinhos de tecidos com diversidade de estampas. Deixava o quarto aconchegante. Cora Coralina também homenageou os pedacinhos aleatórios de tecidos multicoloridos em seu breve poema ‘Sou feita de retalhos”. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Prossegue “E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornado parte da gente também. Diferentes em cores e formatos, os pedacinhos de tecidos sozinhos nada significam. Não compõe nada. Apenas um pedacinho jogado nos cantos. Tudo muda quando pedacinho se junta a outros até formar um grande tecido multicolorido, onde a diversidade de cores, formas e tamanhos resultam em uma bela colcha de retalhos.

Observado de certa altitude, cidades, estados e continentes parecem uma colcha de retalhos. Já reparou? Nossa sociedade não deixa de ser uma colcha de retalhos. Nosso tecido social, composto por individualidades diferentes umas das outras, não consegue imitar uma colcha de retalhos. Talvez em razão de ser concebida artesanalmente, com paciência e sem preocupação com uma harmonia planejada, onde a vontade de tecer uma colcha não levou em conta passos planejados. Deixou a espontaneidade do momento ir ditando os próximos passos, evitando com arte frustrações entre o desejo e a realidade. No tecido social, poder ser que por vaidade íntima não se consegue a mesma magia de uma colcha de retalhos. Uns querem que o formato sobressaia. Outros tantos defendem a cor e outros o tamanho. De qualquer maneira temos o nosso tecido social costurado por um consenso sempre provisório, diferente da colcha de retalho que uma vez pronta torna definitiva sua composição de diversidade. Parece que a satisfação da arte final acaba com o improvisado. Tal como na alma dos artistas e de suas artes ao reinventarem a realidade acabam se revelando arautos do inconsciente coletivo reclamando a felicidade perdida. Arte e cultura são essenciais para o tecido social tal como é a agulha no tecer da colcha de retalhos. A inquietação das artes é como uma linha que possibilita unir os pedacinhos de forma harmoniosa, sem planejamento. A cultura é como pedacinhos de tecidos multicoloridos onde a diferença é o ingrediente para dar o caráter estético. Arte e cultura são meios civilizados que amoldam as inquietações humanas. Não por que sejam eminentemente terapêuticas, mas especialmente por atraírem o olhar sedento pelo belo, pelo harmônico. Tais condições não encontramos da cultura de massa propagada pela mídia de massa também, justamente por desconsiderar os pedacinhos humanos e se importar com números de audiência apenas. Não devemos nos esquecer que a maturidade de um povo se mede por sua produção cultural, pois ela sempre revela a exata distinção entre o que é pessoal e o que é coletivo. Por sua natureza crítica, arte e cultura vivem quase sempre confinada em guetos da censura econômica.

Agora, no lugar dos pedacinhos de tecido, árvores e mais árvores para compor nossa colcha ambiental fragilizada pela falta de apego a tudo que é diferente do seu quintal. Talvez assim o presidente do Brasil são substitua os olhos dos satélites do INPE. Cada árvore derrubada inutilmente te é como um pedacinho da colcha ambiental que menosprezamos, pois muitos ainda acham que a percepção das coisas começa no umbigo.

 

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