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ARTIGO

Gilberto Verardo: "Tempos e desejos"

Psicólogo

14 NOV 19 - 02h:00

Se você quer poupar algum dinheiro, deve primeiro aprender duas coisas: fazer cálculo e controlar seus desejos. O primeiro serve como instrumento de adequação entre o que se ganha e o que se gasta. Já o segundo, é o próprio instrumento psicológico da poupança. 

A base da nossa economia gira em torno do consumo de bens, serviços e vaidades. Claro que alguns são essenciais, mas grande parte pode ser colocada na categoria de supérfluos, de desnecessários ou de expressão da vaidade pessoal. Nesse sentido, há toda uma indústria para provocar desejos. Vai dos alimentos à maquiagem da autoestima. Na realidade, precisamos de pouco para sobreviver: mas, como a filosofia do modelo econômico gira em torno da palavra “mais”, tal qual o desejo, o resultado sempre termina no acúmulo. Se for de dinheiro, há várias racionalizações e sublimações. Se for de objetos, termina por cair naquela estranha síndrome dos acumuladores compulsivos. Me lembra aquele pássaro de cor preta com azul que, para atrair uma parceira, constrói um ninho todo enfeitado, que parece um castelo simbólico. Quanto mais cores conseguir colocar, mais atrativos terá para seu objetivo. Esse pássaro utiliza pedaços de gravetos e sementes coloridas, encontrados à sua volta, e uma criatividade apaixonada e ansiosa. O ninho já não é mais necessário quando seu objetivo é alcançado – o voar brejeiro e alegre com sua parceira. Para a espécie humana, quanto mais durar o castelo, mais garantias pensará ter para sua felicidade. Nem o castelo simbólico para o pássaro nem o acúmulo para o homem, são caminhos únicos para que sejam felizes. São apenas meios de se chegar lá. O pássaro não insiste em seu castelo simbólico. O homem, sim: fascinado pela pompa, encerra nele o simbolismo de suas conquistas que, no entardecer da vida, o fará perceber seu engano. Talvez, até depois de ler a frase de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível para os olhos”. Aí, tenta depositar na sua prole a esperança de seu equívoco consciente. O sentimento gregário e de pertencimento são os pequenos gravetos que precisamos para construir ninhos aconchegantes, antes de belos apenas. Coisas muito sofisticadas não são o melhor atrativo para a felicidade pura, já que ela é sentida por meio de coisas simples e autênticas. Consciente da inutilidade do acúmulo para a felicidade, o Ter vai perdendo sua elegância para o Ser, nesses tempos de excessos. Barbárie e civilização se definem no conceito existencial de Shakespeare: “Ser ou não Ser, eis a questão”. Mas, para SER ou para TER é preciso tempo – talvez seja a coisa mais importante que cada um possa dispor em sua vida. A forma como o tempo é utilizado por cada um tem tudo a ver com a busca da felicidade pessoal e coletiva. De qualquer maneira, a palavra tempo é um deleite existencial. Tem sido utilizada erroneamente pelos boletins meteorológicos para adivinhar a dança dos ventos, tentando desenhar uma previsão do tempo climático. Os astrólogos induzem um futuro em suas premissas zodiacais. O homem do campo organiza seus afazeres pela cara do tempo. O humor do trabalhador pode se alterar conforme o tempo. A passarada tem seu assanhamento influenciado. A natureza muda de cor. O tempo do adolescente é diferente do idoso. O tempo do funcionário público é diferente do empreendedor.

Crianças não ligam muito para o tempo. É coisa de adulto que arruma mil desculpas para estragar o afeto demorado. A pressa revela o temor do tempo. Por fim, à quem pertence o tempo? Muito tem se falado em longevidade. É a medicina brincando com o tempo. Se o tempo é uma criação da natureza, o homem, ao inventar a roda, quis se apossar dele, dando-lhe caráter de utilidade. A velocidade engole o tempo. Que o digam os pilotos de Fórmula Um. Precisamos desacelerar o tempo. Quem sabe possamos perceber que ele é democrático com os olhos e os ouvidos. Sons e imagens se desfazem com o tempo, mas aqueles guardados nos nossos neurônios com afeto é que vão revelar como cada um usou seu tempo, pois as lembranças também são inexoráveis. O tempo pode roubar a vida, mas não as obras que você realizou procurando ser um fino acabamento da sua trajetória de vida.

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