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Campo Grande - MS, quarta, 21 de novembro de 2018

OPINIÃO

Gilberto Verardo: "Sobre o tratamento para dependentes químicos"

Psicólogo/psicoterapeuta

22 AGO 2017Por 01h:00

Tenho perambulado, depois de trabalhar como coordenador terapêutico de uma dessas muitas instituições confessionais, em Promotoria de Saúde, Procuradoria-Geral da República, Câmara Municipal, Vigilância Sanitária, Conselho Municipal de Saúde, entre outros.

Encontrei eco na Câmara Municipal, com a realização de duas audiências públicas e uma reunião com a Comissão de Danos do Conselho Municipal de Saúde; porém, minha inquietação se prolongou.

Para os pais de dependentes, continua fazer a velha pergunta: – Onde foi que falhamos? 

Para os órgãos de saúde, em cada reunião ou seminário, o núcleo da questão sempre gira em torno de verbas e qualificação.

Para os legisladores, bem já fizeram a sua parte. Porém, as comissões especiais devem também fiscalizar.
Eu estou fazendo o que posso.

No olho do furacão do tráfico e do consumo está Campo Grande, que conta com dois Caps-AD, algumas poucas dezenas, nem sempre disponíveis, de leitos hospitalares, 2 equipes de Consultório de Rua esforçadas e prestativas, 3 resoluções e um decreto do Ministério da Saúde e muito desencontro. É como se cada um dos componentes fosse uma ilha.

Existem umas trinta entidades particulares, em grande maioria confessional; ou seja, ligadas diretamente a uma determinada religião, a princípio bem-intencionadas, sob o manto da ajuda ao próximo, sem um método ou protocolo clínico e terapêutico cientificamente estabelecido, em que se sobressai a Bíblia como principal – às vezes, único – instrumento de tratamento e sempre às mínguas para seu custeio e/ou manutenção.

Não dispomos de estatística sobre o número de internados, tratados e acompanhados.

Em torno de 75% da população carcerária daqui teve algum tipo de relação com as drogas. E lá dentro?

A corrida contra o tráfico é constante. Campanhas de prevenção e/ou conscientização estão desaparecidas.Aos locais de atendimento, chegam apenas aqueles que exageraram. Perderam o controle. As entidades confessionais, que se autodenominam comunidade terapêutica (que é mais um método de tratamento do que um lugar de internação), continuam atrás de verbas, apesar de existir uma fonte de financiamento do Ministério da Saúde para o regime de residência.

Muitas acham que mais atrapalham do que ajudam (por quê?). Também não acreditam muito em protocolo clínico, terapêutico ou financeiro do Estado laico. Por outro lado, milhares de pais não se sentem confiantes para buscar auxílio. A internação voluntária é restringida por lei. Assim, as famílias têm que estabelecer uma espécie de parasitismo do dependente problema, até acontecer algo mais desastroso. A personalidade do dependente tem uma raiz negativa fundamental – a recusa e/ou dificuldade em uma relação duradoura.

Disso tudo, percebe-se que a coisa toda começa e se interrompe nos passos iniciais – atendimento e encaminhamento, tanto para o setor público como para o privado, descortinando um cenário de cronificação do problema, podendo surgir, a qualquer momento uma Cracolândia campo-grandense.

Solução? Fazer tudo isso funcionar de verdade, como uma rede articulada, sólida e de intenções concretas, que tenha princípio, meio e fim, iniciando-se com o atendimento, o diagnóstico, o encaminhamento para tratamento e o devido acompanhamento posterior.

Nas entidades públicas e privadas, o tratamento é superficial – concentra-se mais no uso do que nos motivos do uso. Modelos inspirados nos doze passos do AA fazem uso “terapêutico” do sentimento de culpa. Modelos assentados apenas na “religiosidade” fazem o deslocamento do problema para o plano espiritual. Modelos médicos não abrem mão de leitos hospitalares. Porém, todos eles não ultrapassam a “abstinência forçada”.

Sãos esses os modelos que dispomos aqui em Campo Grande. Muitos até se esforçam em mesclar estratégias confessionais com índoles científicas, mas acabam se confundindo e perdendo qualquer eficácia. O problema é bastante solucionável. Porém, primeiro, tem-se que admitir que, por trás de toda dependência, há algum tipo de dificuldade psíquica no que diz respeito a relacionamentos, pessoais, sociais ou afetivos. Nada de genético. Fogem de uma realidade, atualmente, nada sedutora, especialmente para casos de estabelecer qualquer tipo de relação duradoura. O resto é mito que o senso comum cria na ausência do conhecimento científico.

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”, Albert Einstein.

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