Terça, 20 de Fevereiro de 2018

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Gilberto Verardo: 'Nossa terapia cultural'

Psicólogo e psicoterapeuta

9 FEV 2018Por 02h:00

A cultura tem função social de promover a adaptação e a estabilidade de condutas. Também propicia a sensação de pertencimento, aspecto importante para a coesão do tecido social. Tem muita gente que não sabe disso. Talvez suponham que cultura é um tipo de lazer contemplativo.

Nosso Carnaval, como expressão cultural da identidade de boa gente do povo brasileiro, proporciona também o exercício lúdico da alegria e do prazer de encontrar anônimos, pelo simples fato de colocar o bom humor para fora. Alegria de Carnaval tem tudo a ver com bom humor, com gentileza e desprendimento, e isso nada mais é que expressar o prazer da sensação de pertencimento.

Para ser ou estar alegre no Carnaval não precisa de currículo de ninguém, muito menos saber do seu status econômico. No Carnaval, a grande moeda circulante é a alegria. Quem não consegue ficar alegre, no Carnaval consegue por osmose, mesmo ficando quietinho.

De vez em sempre as pessoas precisam de alegria para fazer frente a um cotidiano bem mais selvagem do que nos dias de Carnaval. Pode conferir as estatísticas – no período entre Carnaval e Semana Santa, os índices de violência social diminuem, e muito. Influencia das duas celebrações culturais seculares.

Uma pagã, outra cristã. Um paradoxo cultural criado pela vontade popular e que nunca fez mal algum, porque são manifestações autênticas e criadas com adesão espontânea, por isso o tempo não interfere em seus benefícios terapêuticos. Passa de geração a geração, construindo histórias de alegria, bom humor e escapadas românticas. Virou um habito anual. Virou um costume cultural. Virou uma boa terapia cultural.

Em seus postulados sobre a caraterização dos agrupamentos humanos espontâneos como o que se forma durante o Carnaval, a Sociologia destaca os seguintes aspectos: presença física, ausência de status, comportamento padrão e coletivo, anonimato e diminuição da responsabilidade pessoal. Se você procurar no dicionário, vai encontrar como sinônimo – Carnaval – confusão, desordem, trapalhada. O antônimo é ordem. Sinceramente, não concordo. 

No Carnaval, por promover a reunião de grupos sociais temporários e composto por pessoas anônimas (não se conhecem), a responsabilidade pessoal diminui, pois o indivíduo não age isoladamente, mas participa da manifestação coletiva. Mesmo assim, as desordens e a violência são mínimas.

Quando ocorrem, são mais em razão de pessoas que precisam de outro tipo de terapia. Disso podemos deduzir que o cidadão brasileiro, que poderia ter no Carnaval um motivo sociocultural para colocar para fora os sapos que teve de engolir durante todo um ano, comporta-se como um civilizado alegre, trazendo otimismo com sua demonstração de se sobrepor às mazelas institucionais que abrigam autoridades que fogem do Carnaval.

Festas populares como o Carnaval e a Semana Santa são bons exemplos de que o cidadão brasileiro pode se autodeterminar, precisando pouco do excessivo controle social emanado pelas nossas casas legislativas – municipal e federal, pois nós, eleitores, sentimos mais é a falta de adequação de regras de conduta moral e econômica dos nossos representantes e menos de leis que se apagam nos diários oficiais e livros de Direito.

Como disse meu amigo Marcos Vilalba, durante caminhada no Parque das Nações Indígenas: “A lei é boa para os errados. Para os certos, não faz muita diferença”.

Vamos todos fazer a nossa terapia cultural no Carnaval, mesmo que por osmose, e rezar na Semana Santa para que o poder político não seja mais guiado por projetos sazonais, mas pelo estímulo às iniciativas que nascem da população.

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