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ARTIGO

Gilberto Verardo: "Black Friday do afeto"

Psicólogo
04/12/2019 02:00 -


Na última semana do mês de novembro, o comércio e a TV aberta foram invadidos pela musa das liquidações. A gente fica imaginando como os mercadores modernos são bonzinhos. Em poucas semanas, baixam preços de mercadorias diversas como presentes ao consumidor, condicionado pelo desejo de objetos. O lucro ilusório é para quem compra e quem vende. Os impostos anexados aos produtos não desfazem o raciocínio da avidez pelo lucro.

Grande parte dos consumidores pós-modernos vê nessas situações uma espécie de poder emocional sobre o dinheiro impassível, impondo seu desejo pessoal, pelo menos, de vez em quando. Uma outra parte sente uma mistura de prazer e culpa. Uns pela grana levada pela propaganda atrelada ao anseio de comprar. Outros com certa culpa por adquirir coisas que cedo ou tarde serão descartadas. Os rebeldes não entram nessa onda. Os tímidos e enrustidos disfarçam seu afeto com presentes. Nada de pejorativo nisso tudo, a não ser que a natureza não tem mais como sustentar esses desejos humanos seculares. Talvez em breve lancem o Black Friday de planos de saúde. É um ritual sofisticado de consumo. É uma penitência ao lucro e a objetos e uma oração ao íntimo desejo de pertencer à sociedade de consumo, tão cara aos oceanos, às praias, aos manguezais, aos rios e aos córregos, mas especialmente para bactérias que não digerem tais produtos. A maioria de polipropileno intragável para elas. Então, transformam-se as bactérias ou os produtos, pois a sede de consumo não se arrefece na espécie humana, sedenta de novidades para fazer frente ao tédio existencial. 

Não vai demorar muito para algum modernista inventar a Black Friday do afeto. Quem tiver afeto acumulado ou reprimido terá chance de se dispor dele. Talvez o melhor seja o fato de não ser agente poluente, a não ser para os sociopatas que detestam essa coisa de sentimento nobre, ao contrário dos desvalidos da sociedade capitalista que veem a Black Friday natalina, mesmo sem grandes descontos, como um afeto em forma de presente objetal. Fazer o quê? Essas datas promocionais são uma espécie de arranjo para outro significado de objetos que não seja seu descartar depois de certo tempo. Via de regra o que vale são as primeiras emoções que despertam, geralmente, a gratidão por ser lembrada como pessoa especial, intermediada pelo objeto simbólico, provocando nosso lado lúdico infantil que tanto bem faz para as emoções. Há defensores da ideia de que as pessoas que conseguem manter certo espírito infantil tem a velhice recompensada com o bom humor e a pureza da alma. Coisas tão raras como tesouro de pirata. Depois de algum tempo esse significado se perde e vira uma coisa qualquer, com raras exceções.

Uma Black Friday do afeto poderia ser um santo remédio para o ódio e seus acessórios. Talvez não seja muito fácil criar um evento desses, mas seria uma forma até ingênua de reinventar a roda da sociedade de consumo. Em vez de objetos, afetos, simplesmente. Difícil para muitos. Estranho para outros. Maluco para tantos outros. Possível para os racionais, mas nem tanto, pois devem pensar que cairiam na vala comum, igual à expressão da raiva hoje em dia. Talvez os racionais tenham receio de se acostumar à vida de sentir mais e raciocinar de menos.

Uma Black Friday do afeto ofereceria promoções com gratuidades para quem se dispusesse a receber e dar e afetos a pessoas, animais de estimação e silvestres, árvores, rios e lagoas, pássaros e desconhecidos de outros lugares do planeta. Poderia ser enviada por carta, redes sociais ou pessoalmente, que seria bem mais charmosa. Talvez o maior perigo dessa campanha do afeto seja as pessoas se viciarem pelo afeto. Melhor que o ódio e a raiva que estão na flor da pele de muita, mas muita gente.

Felpuda


Considerados “traíras” por terem abandonado o barco diante dos indícios da chegada da borrasca à antiga liderança, alguns pré-candidatos terão de se esforçar para escapar da, digamos assim, vingança, velha conhecida da dita figurinha. Dizem por aí que há promessas nesse sentido, para que os resultados dos “vira-casacas” nas urnas sejam pífios. Sabe aquela velha máxima: “Pisa. Mas, quando eu levantar, corre!” Pois é...