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Campo Grande - MS, domingo, 18 de novembro de 2018

ARTIGO

Gilberto Verardo: "A depressão pós-moderna"

Psicólogo, psicoterapeuta

20 JUL 2017Por 02h:00

Na minha avaliação, a depressão tem o mesmo sentido de retirar-se. É o que acontece com a existência do deprimido. Quase como um autômato, ele repete os ritos diários da sobrevivência biológica do seu corpo sem sentido e direção, enquanto suas emoções e disciplina psíquica são carregadas por sua grande sensibilidade, mas de pouca de ação. 

Na depressão, encontramos um grande exemplo da dicotomia corpo x mente. Enquanto o corpo biológico funciona, sua mente procura direções para encaminhar sua vida descolorida e vazia de perspectiva. É um retirante emocional.

Duas coisas ligam o homem ao mundo real – emoção e ocupação. A emoção dá o colorido para a vida. A ocupação diária, além de possibilitar a sobrevivência, dá o estímulo para ao agir. Dois aspectos, estes, confusos e incertos na via diária do deprimido.

A depressão se tornou, segundo os médicos, uma doença incurável, mesmo após quase três séculos de estudos e pesquisas. O problema está no paradigma conceitual.

Em um modelo social concebido lá no fim do século XVI, após uma Idade Média assentada no poder religioso, não poderia ser diferente reinventar um novo estilo de vida que contemplasse o trabalho (ação) e o determinismo (postura emocional) como virtudes para superar o estado contemplativo estimuladas até o fim da Idade Média.

Talvez por sua natureza cíclica – nascimento, desenvolvimento e morte, que rege a vida na Terra, este atual modelo social é um martírio para o deprimido. Por outro lado, este atual modelo social vê na pessoa deprimida o retirante abandonando o exercício das virtudes maiores do mundo pós-moderno – trabalho como obrigação e determinismo como regra. Funcionando 24 horas por dia, tais virtudes, que exigem grande capacidade de competir e muito estimuladas para os honestos de princípios e pouco aplicadas pelos espertos sorrateiros, levam como prática de ajustamento social, ao estresse – físico e mental, engolindo, literalmente, o devaneio ocasional, tão necessário para a vida quanto à ocupação diária o é, onde se inclui a diversão, o lazer e a cultura.

A pessoa deprimida é uma espécie de desadaptado de si mesmo. Tem cura?

Tem, mas não do jeito que a medicina acha. A medicina está muito presa ao corpo, seja por seus conceitos, seja por sua prática. Por isso a solução medicamentosa, a qual atende apenas aos parâmetros corporais, não da mente, a qual teima em se rebelar, afastando-se das mesmices que lhe são oferecidas.

Qualquer tratamento que não aguce a ocupação e a emoção, de modo a criar novos caminhos existenciais, não deve ser oferecido para o deprimido, sob a pena de fabricar uma falsa perspectiva terapêutica, sob a premissa de doença incurável.

Andando pelas ruas e observando a expressão facial das pessoas, percebemos certa perplexidade, escondida ou não. Mas ela está aí. Por isso, temos muito a aprender com a depressão pós moderna, pois ela pode nos ensinar a administrar a dor da alma que os medicamentos não dão conta, apenas suavizam temporariamente.

A depressão pode ser considerada como negação a um estilo de vida familiar e social, no qual as sensibilidades emocional e estética não são levadas a sério. Difícil achar um deprimido que não tenha bom gosto. Nada do que é massificado o agrada. Seu senso estético vai além das aparências. Sua cura encontra-se na possibilidade ofertada de, livremente, reinventar seu cotidiano, para nele colocar os sensíveis, os amorosos, cheios de ternura gratuita e gentil.

Caminhadas ao ar livre e uma eficiente psicoterapia, podem, e muito, ajudá-los a encontrar direções para um novo jeito de viver em paz, sem o assédio familiar, social e medicamentoso, que, mesmo um retirante emocional, é um ser humano sensível.

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