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Campo Grande - MS, terça, 23 de outubro de 2018

ARTIGO

Francisco Trindade Leite:
"O desempenho da educação brasileira"

PhD em Educação pela Penn State University

10 AGO 2018Por 02h:00

O Brasil figura na 63ª posição (na média) entre os 70 países que participaram do último exame comparativo internacional Pisa (2015), ministrado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mede a competência em ciências, matemática e leitura de alunos de 15 anos matriculados no 7º ano do Ensino Fundamental. Seu objetivo não é avaliar o que ou o quanto os alunos conhecem, mas o que eles são capazes de fazer com o conhecimento que possuem – a capacidade de aplicar o conhecimento. Os resultados são relevantes para reflexão pelos profissionais da educação. Todos os dados do Pisa aqui apresentados estão disponíveis em https://www.oecd.org/pisa/PISA-2015-Brazil.pdf.

Não houve melhora no desempenho dos alunos brasileiros em leitura e em ciências desde 2000 e 2003, respectivamente. Em matemática, houve uma melhora entre 2003 e 2012, mas piorou de 2012 a 2015. O Inep publicou, no começo de junho de 2018, o relatório de acompanhamento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE). Das 20 metas, só uma está dentro do esperado. Pior ainda, houve um pequeno aumento no porcentual de alunos do 3º ano que não possuem a proficiência esperada em leitura (analfabetos funcionais).

Por outro lado, o gasto por aluno no Brasil, expresso em porcentagem do PIB per capita, praticamente dobrou no mesmo período (ainda que tenha sido destinado de forma desigual entre os níveis de ensino). Isso sugere que o sistema educacional é ineficaz na distribuição e ineficiente na aplicação dos recursos disponíveis, pois, apesar de ter-se quase dobrado o volume de recursos, não houve melhoria no desempenho dos alunos. Infelizmente não tivemos “conquistas” na educação básica nos últimos 18 anos, apenas aumento de gastos (não podemos dizer investimento, pois não houve retorno). Quando falo em conquista, refiro-me a ensinar cada criança e cada jovem a ser capaz de fazer contas e operações mais complexas, entender conceitos, interpretar textos, analisar opções, avaliar alternativas, tomar decisões, resolver problemas da vida cotidiana e ser criativo. Afinal, o objetivo da educação escolar é ensinar, e o que é aprendido é a medida do que e do como se ensina: se não há aprendizado é porque o ensino é falho, ineficiente e ineficaz, seja por quais razões forem. Nessas circunstâncias, colocar mais dinheiro no sistema equivale a jogar dinheiro fora; é preciso antes identificar, atacar e eliminar as causas que estão na raiz da ineficiência do sistema.

Nós, profissionais da educação, precisamos nos incomodar com esses resultados; eles são o espelho do nosso trabalho. Não estou jogando o jogo da culpa, mas chamando-nos coletivamente à razão por uma questão de responsabilidade profissional, social e moral. Precisamos fazer um exercício sério de introspecção e metacognição como ponto de partida. Se sabemos ensinar, por que não ensinamos? Se não sabemos ensinar, o que nos falta aprender? A metacognição é o único caminho que permite identificar nossas deficiências e nossos pontos fortes, bem como as estratégias para aprender com eles. Só ela pode levar-nos a ter a humildade de saber buscar o auxílio necessário. É preciso que compreendamos, honestamente, o que nos está faltando para ser capaz de ensinar melhor. É preciso que saibamos como desenvolver as habilidades necessárias para bem cumprir com nossas responsabilidades profissionais e sociais. Essa é a parte que nos cabe e por onde devemos começar. Depois que a tivermos cumprido com louvor, certamente teremos o necessário respaldo moral para olhar para outros agentes (governo, família, comunidade etc.) e ajudá-los a fazer a parte deles. Antes disso, falta-nos autoridade para tal.

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