Campo Grande - MS, sábado, 18 de agosto de 2018

ARTIGO

Fausto Matto Grosso: "Uma nova maioria"

Professor da UFMS. Membro do Diretório Nacional do PPS

30 MAI 2017Por 02h:00

Marcado por escândalos de corrupção e por uma herança de irresponsabilidades que marcaram a administração pública nas últimas décadas, o País vive hoje uma grande inquietação. 

As delações da Odebrecht e do grupo JBS, entre outras, atingiram em cheio o sistema político e mostraram o alto grau de contaminação dos poderes da república pela corrupção que molda a relação público-privada no Brasil. Os brasileiros tomaram conhecimento da corrupção, que todos sabiam existir, mas não conseguiam avaliar sua chocante extensão. Praticamente, não sobrou pedra sobre pedra na política brasileira, agravando a apartação do mundo da  política em relação à sociedade. Vivemos um grave deficit de representação.

Ao mesmo tempo vivemos uma profunda divisão no interior da sociedade política e da sociedade civil. A guerra não pode ser a continuação da política, e sim a política a continuação da guerra. As divergências são naturais nas sociedades democráticas, mas as disputas sectárias precisam cessar neste momento de grave crise institucional, onde as vítimas serão os brasileiros, especialmente os mais vulneráveis.

 O governo de transição, herdeiro de um enorme passivo econômico e social,  mesmo à custa de práticas da velha política fisiológica, estava começando a colher os primeiros frutos do enfrentamento da crise econômica, quando o presidente foi fulminado, também, por denúncias que lhe tiraram qualquer capacidade de manter a governabilidade e a continuidade das reformas. 

Hoje o presidente Temer está com os dias contados. Apenas não se sabe qual seráa forma do seu afastamento. Impõe-se às forças democráticas o desafio de organizar a continuidade da transição até as eleições de 2018, dentro dos ditames da Constituição.

Muitos esperam o nome do futuro presidente como se houvesse alguém, com predicados especiais, capaz de tirar o País da crise. Não existe esse nome. Só a conformação de uma “nova maioria” construída a partir do reconhecimento da gravidade da crise e por forte pressão da sociedade, pode conformar um novo bloco político comprometido com a continuidade das reformas e com medidas de recuperação da economia. 

Para isso impõe-se o amplo diálogo que deverá envolver setores responsáveis da oposição e da situação. Gostemos ou não, deverão ser construídas pontes entre o PT, o PSDB e o PMDB, as três maiores forças políticas do País. Isso poderá ser a oportunidade de medir o grau de responsabilidade que esses partidos têm com o País, para além de seus projetos de poder. É hora de dar curso à escolha, via Congresso Nacional, do novo presidente para a continuidade da transição. Impõe-se o isolamento dos extremos salvacionistas e oportunistas que têm se igualado na prática da intolerância, às vezes da violência. 

A “maioria” costurada por Temer, com forte componente fisiológico, não servirá mais para este momento. Não há mais trocas a fazer com essa gente, essa via se esgotou. A construção de uma nova maioria, que possa sustentar a continuidade da transição, exige a troca da pequena política, onde cada deputado é uma entidade, pelo fortalecimento de lideranças comprometidas com a grande política que o momento exige. 

Não tenhamos ilusões, gostemos ou não, a transição terá que ser feita com o mesmo Congresso que se encontra desmoralizado pela velha política fisiológica. Não existe outro. Mas os homens são eles próprios e as suas circunstâncias históricas.  A Lava Jato pode impor uma nova lógica nas relações políticas, principalmente se isso for combinado com uma forte pressão da sociedade. 

O Brasil não vai acabar, temos que aproveitar essa crise, para mudar a qualidade da nossa política, afinal, sem ela não há democracia.

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